Encontrei Guilherme
na estação de trem e depois pegamos um ônibus para o cemitério. Ao chegarmos um
coveiro estava cavando a última morada de alguém, auxiliado por outro coveiro.
Primeiro
coveiro: E ai Jão, quem é que vai morar ai?
Segundo
coveiro: Um morto.
Primeiro
coveiro: Eu sei abestado, mas sabe o nome do infeliz?
Segundo
coveiro: Esse não tem mais nome não. Só vão chama-lo de Saudade agora.
Primeiro
coveiro: Mais cê é besta mesmo. Fica ai fazendo piada com gente morta.
Segundo
coveiro: Ele não se avexa mais não. Fique sossegado.
Primeiro
coveiro: Mais os parente dele vão se avexar.
Segundo
coveiro: Só se cê contar. Apesar de que, eu vou negar tudo.
Nesse
momento chegamos eu e Guilherme.
Primeiro
coveiro: Óia, eu vou pegar uma cana pra nóis.
Segundo coveiro:
Faz bem. Ainda não conheci situação que não mereça um pouco de pinga. Seja a
coisa boa ou ruim, a pinga lava a garganta e permite encarar o trabalho com
mais naturalidade.
Victor: (À parte, a Guilherme) Esse manja dos
paranâue.
Guilherme:
(À parte, a Victor) Hum.
Segundo
coveiro: (Canta)
Quando eu
era menino eu amava,
Os dias
passavam sem eu me dar conta.
A moça que
me vendia a xana,
De graça,
seus beijos me dava.
Victor: (À parte, a Guilherme) E ainda é poeta e
cantor. Você que gosta de poesia, Guilherme, o que acha dessas rimas?
Guilherme:
(À parte, a Victor) Acho que ele é
como você, só mais um perdido tentando enganar a arte com rimas, sexo e álcool.
Victor: (À parte, a Guilherme) Ah! Acabei de me
lembrar por que não te trago em velórios.
Guilherme:
(À parte, a Victor) Cala a boca.
Victor: (À parte, a Guilherme) Bem, vamos falar
com esse nobre homem, que faz o serviço que nenhum de nós tem vontade de fazer.
(Ao coveiro) Bom dia amigo. Muito
trabalho?
Segundo
coveiro: Bom dia. O trabalho é bastante, mas não preciso de muitos cuidados.
Victor:
Cuidados com a cova?
Segundo
coveiro: Oxi, e cê ta vendo eu sovando pão?
Victor:
Depende do ponto de vista.
Segundo
coveiro: Não depende não. Mesmo que você goste de bater em gente morta saiba
que a massa não cresce mais. Até os gordos como você deixam tudo aqui para
alimentar os vermes. Daqui não se tira mais nada, só os ossos daqui a três anos.
Guilherme:
(À parte) Eca!
Victor: Eu
sei.
Segundo
coveiro: Cê se sabe, por que tá perguntando?
Victor:
Curiosidade.
Segundo
coveiro: Bom pra você que a curiosidade matou o gato, cê tá salvo.
Victor:
Que Judas você!
Segundo
coveiro: Nem quero morrer enforcado, e também não tô pensando em te vender por
moeda alguma, e nem pense que vou te beijar pra te trair.
Victor: (rindo) Certo, você venceu. O que faço
para comprar seu apreço?
Segundo
coveiro: Pode me comprar uma cana.
Victor: Certo,
vou lá.
Guilherme:
Eu vou para o velório. Vocês são doidos.
Voltei com
o primeiro coveiro depois de meia hora. Não me lembro de estar em condições de
cantar, ou mesmo andar, mas cantamos, andamos e bebemos uma garrafa de pinga
enquanto eles cavavam e eu cantava.
Victor: (Canta)
...Quando
seus amigos
Te
surpreendem
Deixando a
vida de repente
E não se
quer acreditar...
Primeiro
coveiro: Podia vim mais gente como o Tio ai né?
Segundo
coveiro: É... ele tava chato antes, mais pelo menos agora ele canta e não fica
perguntando as coisas.
Primeiro
coveiro: E ainda comprou mais um litro de cana.
Segundo
coveiro: Tem isso também. Mais daqui a poco vem o povo trazer o caxão, e nóis
ainda não chegamo no sete palmo.
Primeiro coveiro:
Verdade. Bom deixa eu te ajudar ai então.
Segundo
coveiro: Faz bem. (À Victor) Hei!
Desce essa cana aqui e muda de rádio que eu não quero mais ouvir essas música
de roqueiro não.
Victor:
Certo. Mas, hemos de cantar o que agora?
Segundo
coveiro: Não emo nada não. Essa molecada de cabelinho pro lado rebola na mandioca.
Primeiro
coveiro: Certeza.
Victor:
Oxi... Não entendi é nada.
Primeiro
coveiro: (Ao segundo coveiro) Vai
amigo puxa um Pablo e manda essa sofrência pra nóis.
Victor:
Acho que a minha cota de álcool deu galera. Vou nessa, mandem um beijo nas
crianças por mim (Vai embora).
Primeiro
coveiro: Acho que ele quer beijar as suas crianças.
Segundo
coveiro: Oxi, homem algum vai beijar as minhas bolas!
Ambos
riem.
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