segunda-feira, 25 de maio de 2015

S07E01: Retrovailles - Cena 7: Vida Passageira

Encontrei Guilherme na estação de trem e depois pegamos um ônibus para o cemitério. Ao chegarmos um coveiro estava cavando a última morada de alguém, auxiliado por outro coveiro.
Primeiro coveiro: E ai Jão, quem é que vai morar ai?
Segundo coveiro: Um morto.
Primeiro coveiro: Eu sei abestado, mas sabe o nome do infeliz?
Segundo coveiro: Esse não tem mais nome não. Só vão chama-lo de Saudade agora.
Primeiro coveiro: Mais cê é besta mesmo. Fica ai fazendo piada com gente morta.
Segundo coveiro: Ele não se avexa mais não. Fique sossegado.
Primeiro coveiro: Mais os parente dele vão se avexar.
Segundo coveiro: Só se cê contar. Apesar de que, eu vou negar tudo.
Nesse momento chegamos eu e Guilherme.
Primeiro coveiro: Óia, eu vou pegar uma cana pra nóis.
Segundo coveiro: Faz bem. Ainda não conheci situação que não mereça um pouco de pinga. Seja a coisa boa ou ruim, a pinga lava a garganta e permite encarar o trabalho com mais naturalidade.
Victor: (À parte, a Guilherme) Esse manja dos paranâue.
Guilherme: (À parte, a Victor) Hum.
Segundo coveiro: (Canta)
Quando eu era menino eu amava,
Os dias passavam sem eu me dar conta.
A moça que me vendia a xana,
De graça, seus beijos me dava.
Victor: (À parte, a Guilherme) E ainda é poeta e cantor. Você que gosta de poesia, Guilherme, o que acha dessas rimas?
Guilherme: (À parte, a Victor) Acho que ele é como você, só mais um perdido tentando enganar a arte com rimas, sexo e álcool.
Victor: (À parte, a Guilherme) Ah! Acabei de me lembrar por que não te trago em velórios.
Guilherme: (À parte, a Victor) Cala a boca.
Victor: (À parte, a Guilherme) Bem, vamos falar com esse nobre homem, que faz o serviço que nenhum de nós tem vontade de fazer. (Ao coveiro) Bom dia amigo. Muito trabalho?
Segundo coveiro: Bom dia. O trabalho é bastante, mas não preciso de muitos cuidados.
Victor: Cuidados com a cova?
Segundo coveiro: Oxi, e cê ta vendo eu sovando pão?
Victor: Depende do ponto de vista.
Segundo coveiro: Não depende não. Mesmo que você goste de bater em gente morta saiba que a massa não cresce mais. Até os gordos como você deixam tudo aqui para alimentar os vermes. Daqui não se tira mais nada, só os ossos daqui a três anos.
Guilherme: (À parte) Eca!
Victor: Eu sei.
Segundo coveiro: Cê se sabe, por que tá perguntando?
Victor: Curiosidade.
Segundo coveiro: Bom pra você que a curiosidade matou o gato, cê tá salvo.
Victor: Que Judas você!
Segundo coveiro: Nem quero morrer enforcado, e também não tô pensando em te vender por moeda alguma, e nem pense que vou te beijar pra te trair.
Victor: (rindo) Certo, você venceu. O que faço para comprar seu apreço?
Segundo coveiro: Pode me comprar uma cana.
Victor: Certo, vou lá.
Guilherme: Eu vou para o velório. Vocês são doidos.
Voltei com o primeiro coveiro depois de meia hora. Não me lembro de estar em condições de cantar, ou mesmo andar, mas cantamos, andamos e bebemos uma garrafa de pinga enquanto eles cavavam e eu cantava.
Victor: (Canta)
...Quando seus amigos
Te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar...
Primeiro coveiro: Podia vim mais gente como o Tio ai né?
Segundo coveiro: É... ele tava chato antes, mais pelo menos agora ele canta e não fica perguntando as coisas.
Primeiro coveiro: E ainda comprou mais um litro de cana.
Segundo coveiro: Tem isso também. Mais daqui a poco vem o povo trazer o caxão, e nóis ainda não chegamo no sete palmo.
Primeiro coveiro: Verdade. Bom deixa eu te ajudar ai então.
Segundo coveiro: Faz bem. (À Victor) Hei! Desce essa cana aqui e muda de rádio que eu não quero mais ouvir essas música de roqueiro não.
Victor: Certo. Mas, hemos de cantar o que agora?
Segundo coveiro: Não emo nada não. Essa molecada de cabelinho pro lado rebola na mandioca.
Primeiro coveiro: Certeza.
Victor: Oxi... Não entendi é nada.
Primeiro coveiro: (Ao segundo coveiro) Vai amigo puxa um Pablo e manda essa sofrência pra nóis.
Victor: Acho que a minha cota de álcool deu galera. Vou nessa, mandem um beijo nas crianças por mim (Vai embora).
Primeiro coveiro: Acho que ele quer beijar as suas crianças.
Segundo coveiro: Oxi, homem algum vai beijar as minhas bolas!
Ambos riem.

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