Eu corri para chegar ao bar e já caia uma garoa fraca, o vento assobiava uma melodia triste.
Um casal de amigos estava a porta assoprando as mãos em forma de conchas. Depois vieram as meninas, e depois mais duas e depois mais um casal. Mais tarde veio mais uma e depois mais um amigo. Ainda mais tarde chegou mais pessoas...
Fazia muito tempo que velhas histórias não eram contadas de maneira nova, para novos ouvidos.
Os sorrisos, as risadas e as gargalhadas suprimiam o chiado do vento. Os cigarros amaciavam a cerveja. Ali, com aquelas pessoas dividindo a comida, histórias e alegrias, eu pude sentar próximo a mesa e os ver... fazia tempo que eu não via o mundo daquele ângulo.
Vale a pena escolher os amigos pelas janelas da alma. Valeu a pena fazer as escolhas que fiz... sempre valeu, mas as vezes é preciso o ceticismo absoluto para ver idéias virarem matéria...
Sempre valeu a pena contar aquelas histórias e ouvi-las de outras formas.
Ainda vale a pena brigar pelo que julgamos ser correto... sempre valeu... Eles sempre valeram o esforço.
sábado, 3 de agosto de 2019
quinta-feira, 4 de julho de 2019
Sobre guerreiros e políticos...
Muitas coisas andam na minha mente. As vezes eu tenho de conter o que me faz eu me reconhecer, a raiva. Boa parte do meu tempo é discutindo o óbvio, os desejos pessoais e a individualidade.
Tenho saudades do tempo onde eu não tinha políticas para fazer o que tinha de ser feito. Agora, tudo é negociação, de tempo, de espaço, de logística, de tarefas, de facilitar a vida dos outros e tornar a minha mais difícil.
Eu sei que é errado eu reclamar quando tenho amigos como os meus, que se sacrificam para tornar esse mundo melhor, ou pelo menos mais democrático. Contudo, eu sempre fui o descontente, aquele contra a sistematização, contra as hierarquias. Agora sou parte da roda que processa a loucura.
Meus cadernos velhos não me dizem o que fazer quando as coisas não se tratam de mulheres ou sobre o tipo de cara que quero ser. Agora é política, negociação, eu nunca gostei de negociações. Sempre fui mais do cara que prefere morrer a matar, e agora mato um leão por dia.
Os amigos ainda me apoiam, incentivam, mas em boa parte deles eu vejo a esperança de que eu lhes diga o que fazer... Eu não sei o que fazer com eles. Sei quem sou e o que quero, mas não estou na minha área...
Napoleão me ensinou a planejar e vencer com estratégia e tempo. Maquiavel me ensinou sobre o poder, o que fazer com ele. Sun Tzu me ensinou a tomar as peças do jogo sem destruir o estado das pessoas. Musashi me ensinou a usar o céu e a terra como armas, ensinou-me a fazer do perto longe e a vencer uma pessoa como se vence mil. Nenhum deles me ensinou a abrir mão de quem se é para fazer política.
Talvez seja hora de retomar os textos gregos...
Tenho saudades do tempo onde eu não tinha políticas para fazer o que tinha de ser feito. Agora, tudo é negociação, de tempo, de espaço, de logística, de tarefas, de facilitar a vida dos outros e tornar a minha mais difícil.
Eu sei que é errado eu reclamar quando tenho amigos como os meus, que se sacrificam para tornar esse mundo melhor, ou pelo menos mais democrático. Contudo, eu sempre fui o descontente, aquele contra a sistematização, contra as hierarquias. Agora sou parte da roda que processa a loucura.
Meus cadernos velhos não me dizem o que fazer quando as coisas não se tratam de mulheres ou sobre o tipo de cara que quero ser. Agora é política, negociação, eu nunca gostei de negociações. Sempre fui mais do cara que prefere morrer a matar, e agora mato um leão por dia.
Os amigos ainda me apoiam, incentivam, mas em boa parte deles eu vejo a esperança de que eu lhes diga o que fazer... Eu não sei o que fazer com eles. Sei quem sou e o que quero, mas não estou na minha área...
Napoleão me ensinou a planejar e vencer com estratégia e tempo. Maquiavel me ensinou sobre o poder, o que fazer com ele. Sun Tzu me ensinou a tomar as peças do jogo sem destruir o estado das pessoas. Musashi me ensinou a usar o céu e a terra como armas, ensinou-me a fazer do perto longe e a vencer uma pessoa como se vence mil. Nenhum deles me ensinou a abrir mão de quem se é para fazer política.
Talvez seja hora de retomar os textos gregos...
domingo, 30 de junho de 2019
Vai tomar suco!
Ela: Ontem eu fui na igreja e conversei com o pastor sobre meu namoro, compromisso e casamento.
Eu: Caramba! Pessoas adultas pedindo permissão para serem adultos. Ah... as vantagens de sermos adultos.
Ela: Há! Você é um bobão!
Eu: Quê?
Ela: E tem isso também. O pastor me proibiu de falar palavrões.
Eu: Cara... ramba.
Ela: É uma mer... um cocô!
Eu: Nossa. Isso é muito legal. Catapimbas!
Ela: Vai tomar suco! E nada de sexo antes do casamento.
Eu: E pretendem se casar quando?
Ela: Amanhã...
Eu: Puta mer... Putz grila! Sabia que não existe a palavra casamento na bíblia e que basta se juntarem de coração.
Ela: Você disse que eu precisava de ajuda... Entrei para a igreja e agora cortaram o sexo.
Eu: E o que o Tomás disse?
Ela: Ele é um cuzã... cuscuz! Não me pegou pelo cabelo, não me deu umas palmadas, não me jogou na parede e não me chamou de lagartixa... ta tudo certo para ele.
Eu: Ele deve fazer amor, lavar a mão e ir dormir... isso acalma.
Ela: Tomás no sul mano... vai Tomás no sul.
Eu: Caramba! Pessoas adultas pedindo permissão para serem adultos. Ah... as vantagens de sermos adultos.
Ela: Há! Você é um bobão!
Eu: Quê?
Ela: E tem isso também. O pastor me proibiu de falar palavrões.
Eu: Cara... ramba.
Ela: É uma mer... um cocô!
Eu: Nossa. Isso é muito legal. Catapimbas!
Ela: Vai tomar suco! E nada de sexo antes do casamento.
Eu: E pretendem se casar quando?
Ela: Amanhã...
Eu: Puta mer... Putz grila! Sabia que não existe a palavra casamento na bíblia e que basta se juntarem de coração.
Ela: Você disse que eu precisava de ajuda... Entrei para a igreja e agora cortaram o sexo.
Eu: E o que o Tomás disse?
Ela: Ele é um cuzã... cuscuz! Não me pegou pelo cabelo, não me deu umas palmadas, não me jogou na parede e não me chamou de lagartixa... ta tudo certo para ele.
Eu: Ele deve fazer amor, lavar a mão e ir dormir... isso acalma.
Ela: Tomás no sul mano... vai Tomás no sul.
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Eu, o bravo
Amigo: Mano... tem duas minas na mesa ao lado olhando e sorrindo para nós.
Eu: Olhou para trás da gente? Não tem dois caras bonitos na outra mesa?
Amigo: Não não... estamos na mesa da parede atrás de nós só os cartazes de breja e promoções do dia.
Eu: As vezes as meninas gostam das meninas de biquini nos cartazes ou estão sorrindo "pro moções" do dia e não para nós.
Amigo: Para se ser chato. Você ta com a mulher que gosta certo? Então você pode se me acompanhar e fazer aquelas suas piadas sobre como você é foda e como as pessoas são umas bostas... Elas riem quando não te conhecem direito. Elas acham que você está brincando.
Eu: Há! Então eu posso xingar e sorrir para as pessoas que eu odeio e elas nem sabem que é verdade?
Amigo: Só para as que não te conhecem.
Eu: Beleza. Vamos lá falar com elas!
Eu: Olhou para trás da gente? Não tem dois caras bonitos na outra mesa?
Amigo: Não não... estamos na mesa da parede atrás de nós só os cartazes de breja e promoções do dia.
Eu: As vezes as meninas gostam das meninas de biquini nos cartazes ou estão sorrindo "pro moções" do dia e não para nós.
Amigo: Para se ser chato. Você ta com a mulher que gosta certo? Então você pode se me acompanhar e fazer aquelas suas piadas sobre como você é foda e como as pessoas são umas bostas... Elas riem quando não te conhecem direito. Elas acham que você está brincando.
Eu: Há! Então eu posso xingar e sorrir para as pessoas que eu odeio e elas nem sabem que é verdade?
Amigo: Só para as que não te conhecem.
Eu: Beleza. Vamos lá falar com elas!
sábado, 15 de junho de 2019
Aceitamos devoluções
Ela: Você escolheu um jeito diferente de me contar sobre a sua vida.
Eu: Ai há um erro comum. Eu escrevo para mim, se permito que vocês leiam é por quê eu tenho um motivo, mas é um motivo meu.
Ela: Sei, até parece que não é para mim que você escreve.
Eu: É verdade também, é sempre sobre você e para você. Contudo, é para mim também, pois não há o meu eu de hoje sem você.
Ela: Eu sei...
E ela ri como uma criança que ganhou algo que queria muito.
Ela:... que bom. Por que hoje você pode ganhar algo meu. Na verdade, eu vou te devolver algo que você me dá sempre.
Eu: Nem quero. Se for piadas sem noção ou sarcasmo gratuito ou mesmo a acidez do meu humor pode ficar contigo.
Ela: Não é nada disso...
Ela me olhou nos olhos, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, ficou séria e me disse:
Ela: Eu já disse que gosto de você hoje?
Eu: Ai há um erro comum. Eu escrevo para mim, se permito que vocês leiam é por quê eu tenho um motivo, mas é um motivo meu.
Ela: Sei, até parece que não é para mim que você escreve.
Eu: É verdade também, é sempre sobre você e para você. Contudo, é para mim também, pois não há o meu eu de hoje sem você.
Ela: Eu sei...
E ela ri como uma criança que ganhou algo que queria muito.
Ela:... que bom. Por que hoje você pode ganhar algo meu. Na verdade, eu vou te devolver algo que você me dá sempre.
Eu: Nem quero. Se for piadas sem noção ou sarcasmo gratuito ou mesmo a acidez do meu humor pode ficar contigo.
Ela: Não é nada disso...
Ela me olhou nos olhos, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, ficou séria e me disse:
Ela: Eu já disse que gosto de você hoje?
sexta-feira, 31 de maio de 2019
Ainda sobre ASMR e textura do escuro...
Eu ainda não havia ouvido asmr, mas já havia perscutrado o escuro. Os sons eram complicados de se assimilar e ela ainda falava para prestar atenção no escuro. Eu não estava entendendo nada. Ela ainda falava sobre seriados e desenhos japoneses. Eu ainda me sentia desconfortável ao discutir desenho com meninas. Ela ainda fazia os selinhos estalarem como lenhas numa fogueira. Eu ainda não entendia os sons de asmr. Ela ainda falava sobre filmes de Almodóvar. Eu ainda tateava no escuro até que eu reconheci o caminho da água. Ela ainda segurava a respiração vez por outra. Eu ainda não entendia os sons até que entendi que os sons que se danem. Ela não falava mais, mas suspirava bastante. Eu finalmente entendi sobre sons que relaxam... E sobre as texturas que há no escuro, pois meus dedos acharam lábios sorrindo...
quinta-feira, 23 de maio de 2019
Machado nú e bêbado
Eu já disse que te amo bêbado?
Se não é por que eu não te amo.
Se eu não me coloquei nú como o tio Machado de Assis é por que eu não falei a verdade. Eu te pedi em casamento? Pedi todas que me deram atenção.
Eu estava bêbado? Estou sempre. Busco em todas vocês... Ela.
Creça, eu estou tentando cresçer. Sim, eu uso todas vocês para estar pronto para ela, desçendo tão pura em meio a todas vocês, de mão em mão...
Eu aguento... Tu aguentas?
Se não é por que eu não te amo.
Se eu não me coloquei nú como o tio Machado de Assis é por que eu não falei a verdade. Eu te pedi em casamento? Pedi todas que me deram atenção.
Eu estava bêbado? Estou sempre. Busco em todas vocês... Ela.
Creça, eu estou tentando cresçer. Sim, eu uso todas vocês para estar pronto para ela, desçendo tão pura em meio a todas vocês, de mão em mão...
Eu aguento... Tu aguentas?
sexta-feira, 22 de março de 2019
... e tocava um velho blues sobre uma estrada iluminada...
Ela: Eu li seus textos esses dias. Eu li sobre a ruiva.
Eu: É, e o que achou?
Ela: Normal. Segue a vida, né?
Eu: Ciúmes morena?
Ela: Não. Foi você quem disse que não ia namorar ninguém que não fosse eu.
Eu: Não estou namorando.
Ela: Não parece... Já me esqueceu?
Eu: Todos os dias morena, todos os dias eu tenho de te esquecer.
A conversa foi confusa, eu nunca sei se ela me ama ou se gosta de ser elogiada. Depois falamos do dia-a-dia, e eu odeio esse tipo de conversa, em geral não me importo com a vida alheia. Contudo, as histórias de ônibus, do metro, da fila do cinema, das decisões tomadas dentro de lojas, da comida boa e a ruim dos restaurantes, dos clientes legais e os chatos... Tudo isso vindo dela me apreendia a atenção, afinal lembrei de escrever sobre esses assuntos.
A cor da pele, a forma da boca, o timbre da voz, o olor. Tudo isso ainda me fazia de um cara tão esperto agir como menino perto dela. Eu poderia descrever as roupas, o ondulado dos cabelos, os resveladiços, mas dessa vez hei de guardar para mim. Sem propagandas hoje...
Ela: Me leva embora?
Eu: Claro.
Ela me deu a mão dentro de um shopping, nunca havia acontecido, e com sua graça e poesia me carregou para fora arrastado. Pediu um sorvete num quiosque e me mandou pagar.
Um beijo gelado em uma noite quente.
Dedos entrelaçados. Eu sorria enquanto eu a beijava, foi um ósculo confuso. Ela me perguntou o por quê de eu rir. Ergui nossas mãos dadas e disse com a voz mais metálica e parecida com a do Wall-E que eu pude: Eva... nas ruas iluminadas da cidade tocava um blues velho regado com lembranças e oportunidades... Pena que eu vou estragar tudo. Como sempre...
Eu: É, e o que achou?
Ela: Normal. Segue a vida, né?
Eu: Ciúmes morena?
Ela: Não. Foi você quem disse que não ia namorar ninguém que não fosse eu.
Eu: Não estou namorando.
Ela: Não parece... Já me esqueceu?
Eu: Todos os dias morena, todos os dias eu tenho de te esquecer.
A conversa foi confusa, eu nunca sei se ela me ama ou se gosta de ser elogiada. Depois falamos do dia-a-dia, e eu odeio esse tipo de conversa, em geral não me importo com a vida alheia. Contudo, as histórias de ônibus, do metro, da fila do cinema, das decisões tomadas dentro de lojas, da comida boa e a ruim dos restaurantes, dos clientes legais e os chatos... Tudo isso vindo dela me apreendia a atenção, afinal lembrei de escrever sobre esses assuntos.
A cor da pele, a forma da boca, o timbre da voz, o olor. Tudo isso ainda me fazia de um cara tão esperto agir como menino perto dela. Eu poderia descrever as roupas, o ondulado dos cabelos, os resveladiços, mas dessa vez hei de guardar para mim. Sem propagandas hoje...
Ela: Me leva embora?
Eu: Claro.
Ela me deu a mão dentro de um shopping, nunca havia acontecido, e com sua graça e poesia me carregou para fora arrastado. Pediu um sorvete num quiosque e me mandou pagar.
Um beijo gelado em uma noite quente.
Dedos entrelaçados. Eu sorria enquanto eu a beijava, foi um ósculo confuso. Ela me perguntou o por quê de eu rir. Ergui nossas mãos dadas e disse com a voz mais metálica e parecida com a do Wall-E que eu pude: Eva... nas ruas iluminadas da cidade tocava um blues velho regado com lembranças e oportunidades... Pena que eu vou estragar tudo. Como sempre...
terça-feira, 12 de março de 2019
Medida Nova...
Ela passou por mim, eu estava atrás da coluna que ajudava aquele prédio a ficar de pé. O vestido balançava e eu podia ver as rimas da redondilha... a medida nova intercalada entre as silabas tônicas e aos a, b, a, b, a, b, a, b, c e c.
Eu lia as panturilhas sob os joelhos, os pés sobre as sandalhas, e o sujeito oculto sob a bainha do vestido era presumível e admirável. O latifúndio dorsal estava a mostra, como biquínis e estatísticas que revelam coisas interessantes, mas escondem o essencial. Eu lia as costelas e a coluna despontando e forçando a pele a criar resvaladiços. A cada fechar de olhos eu via a água correndo por ali contornando as formas, descendo para terras mais baixas, enchendo lagos e mares... mare nostrum.
Ela parou e os versos brancos tiveram a sua vez. O pescoço sinuoso separando cabeça de corpo. Os cabelos balançando como palavras nas mãos de um modernista e com o rosto descrito por um barroco.
A poesia estava ali escrita com olhos, lábios, nariz, maçãs, dentes, orelhas, voz e graça. Rimas simples voavam com a expiração dela. O peito subia cheio de ar e depois descia suavemente, de modo lento como alguém que procura palavras em um dicionário.
A prosa mostrava movimentos coordenados, de alguém que por anos balançava o vento e não o contrário.
Eu decidi me levantar, ela me viu e sorriu. Um sorriso grande, bonito e cheio de adjetivos. Os substantivos, todos concretos, balançaram também. Os verbos atuavam e a traziam em minha direção. As preposições uniam todo aquele conjunto dando forma, beleza e sentido a tudo isso.
Sempre preferi as análises sintáticas, mas ali a vendo, desejei saber mais das morfológicas. Ao entrelaçar meus dedos aos dela eu notei que tudo bem aprender mais sobre análises morfossintáticas.
Eu lia as panturilhas sob os joelhos, os pés sobre as sandalhas, e o sujeito oculto sob a bainha do vestido era presumível e admirável. O latifúndio dorsal estava a mostra, como biquínis e estatísticas que revelam coisas interessantes, mas escondem o essencial. Eu lia as costelas e a coluna despontando e forçando a pele a criar resvaladiços. A cada fechar de olhos eu via a água correndo por ali contornando as formas, descendo para terras mais baixas, enchendo lagos e mares... mare nostrum.
Ela parou e os versos brancos tiveram a sua vez. O pescoço sinuoso separando cabeça de corpo. Os cabelos balançando como palavras nas mãos de um modernista e com o rosto descrito por um barroco.
A poesia estava ali escrita com olhos, lábios, nariz, maçãs, dentes, orelhas, voz e graça. Rimas simples voavam com a expiração dela. O peito subia cheio de ar e depois descia suavemente, de modo lento como alguém que procura palavras em um dicionário.
A prosa mostrava movimentos coordenados, de alguém que por anos balançava o vento e não o contrário.
Eu decidi me levantar, ela me viu e sorriu. Um sorriso grande, bonito e cheio de adjetivos. Os substantivos, todos concretos, balançaram também. Os verbos atuavam e a traziam em minha direção. As preposições uniam todo aquele conjunto dando forma, beleza e sentido a tudo isso.
Sempre preferi as análises sintáticas, mas ali a vendo, desejei saber mais das morfológicas. Ao entrelaçar meus dedos aos dela eu notei que tudo bem aprender mais sobre análises morfossintáticas.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
Modelo Cívico -Militar... Pra que?
Quarta-Feira. Sete horas da manhã. Ano da graça de Nosso Senhor 1995. Crianças estão com a mão direita sobre o peito cantando o hino nacional.
Quinta-Feira. Nove horas e trinta e sete minutos da manhã. 2019, um ano sem graça. Um adulto sentado de fronte ao computador lendo medidas absurdas do novo governo.
A reportagem [1] diz que o governo deseja que as escolas se voluntariem para um novo modelo de ensino "Cívico-Militar" que não é explicado, definido ou sequer apresenta uma resenha. Muitos defendem, outros criticam, eu faço parte dos outros. As melhores escolas do mundo apresentam um modelo de liberdade de aprendizagem [2], o modelo "open plan", muito mais participativo, uma desconstrução do modelo onde o professor fica na frente da sala vomitando informações para os alunos.
O presidente eleito defende a ideia de que a ideologia é ruim para o Brasil... Eu ainda não sei de qual Brasil ele está falando. Essa minha dúvida pode parecer uma crítica, e é, mas depois que ele ganhou a eleição e não havia mais nada a se fazer quanto a isso, eu decide dar uma chance a esse governo, mesmo que os militantes pseudo-religiosos da chamada direita insistam que pessoas com a minha linha de raciocínio deveriam ir para Cuba ou Venezuela, por razões que eu ainda não entendo, afinal se eles ficaram aqui durante 14 anos da gestão ideológica do Partido dos Trabalhadores por que não foram embora para, seja lá qual, país que eles achem mais de direita? Então diga ao povo que eu fico!
Militarizar as escolas é uma forma de ideologia. Eu gosto de Engenheiros do Hawaii, e há uma musica de deles que diz: "Me obrigue a morrer, mas não me peça para matar" [3]. Se qualquer tipo de alinhamento politico-social for aplicado ao ensino ele será ideológico. A liberdade e alternância dos professores durante as fases de vida do estudante devem ser melhores para o seu desenvolvimento do que um único modelo conservador de ensino. Talvez os professores sejam comunistas, mas outros serão liberais, alguns religiosos, outros ateus... É bom para as crianças crescerem com a diversidade, palavra essa ameaçada de extinção. É quase voltar a 1984, o livro não o ano, que excluindo as palavras se exclui as oportunidades de realizar criticas... Isso se não tivéssemos voltado a 1964, o ano não o livro. Não é por que as pessoas dizem que são a favor de uma escola sem partido, ou ideologias, que isso é verdade. Nos aqui somos adultos, não acreditamos em mitos, salvadores ou metafísica, né? Beleza.
A doutrinação das crianças ocorre desde que existem crianças e desde que existem doutrinas, escolha a do seu filho, mas tente não colocar o meu no mesmo saco. Ao ler o prefácio do Trivium da editora É Realizações, José Monir Nasser nos apresenta uma clara diferenciação entre ensino e educação. Se as pessoas querem que a escola não dê educação para o seus filhos, mas ensino, então não é pelo caminho da militarização que vamos atingir esse ideal.
Para fechar esse meu lamento, acredito que militares são condicionados a obedecer sempre e sem questionar. Não importa que tipo de idiota você tenha acima de você. A escola não é um lugar para isso, ali a melhor forma de rebeldia, a melhor forma de se aprender é questionar tudo e todos, ali é o lugar para isso. A escola não é o lugar de se restringir as capacidades dos alunos por que o modelo atual de sociedade não entende. A escola é o lugar de sempre se perguntar "Por que?" e não de abaixar a cabeça para uma ideologia militar, cristã, esquerdista... escolha a sua favorita e acrescente a lista. Pense, pense sempre, pergunte sempre, não permita que o medo das pessoas retire a sua curiosidade. É problema delas se querem viver doutrinadas e presas a conceitos polarizadores como ir para a direita, a esquerda ou o centro. Retire o melhor que achar de tudo e se desenvolva a partir disso...
E se mandarem você para algum lugar que não seja a sua casa, pergunte por que eles não foram embora também? Nenhum país que possuem de exemplo os quiseram? Ou só ficaram por aqui mesmo? Então eu também só vou ficar...
Dê um beijo nas crianças por mim.
[3] Nunca se sabe
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