Eu lia as panturilhas sob os joelhos, os pés sobre as sandalhas, e o sujeito oculto sob a bainha do vestido era presumível e admirável. O latifúndio dorsal estava a mostra, como biquínis e estatísticas que revelam coisas interessantes, mas escondem o essencial. Eu lia as costelas e a coluna despontando e forçando a pele a criar resvaladiços. A cada fechar de olhos eu via a água correndo por ali contornando as formas, descendo para terras mais baixas, enchendo lagos e mares... mare nostrum.
Ela parou e os versos brancos tiveram a sua vez. O pescoço sinuoso separando cabeça de corpo. Os cabelos balançando como palavras nas mãos de um modernista e com o rosto descrito por um barroco.
A poesia estava ali escrita com olhos, lábios, nariz, maçãs, dentes, orelhas, voz e graça. Rimas simples voavam com a expiração dela. O peito subia cheio de ar e depois descia suavemente, de modo lento como alguém que procura palavras em um dicionário.
A prosa mostrava movimentos coordenados, de alguém que por anos balançava o vento e não o contrário.
Eu decidi me levantar, ela me viu e sorriu. Um sorriso grande, bonito e cheio de adjetivos. Os substantivos, todos concretos, balançaram também. Os verbos atuavam e a traziam em minha direção. As preposições uniam todo aquele conjunto dando forma, beleza e sentido a tudo isso.
Sempre preferi as análises sintáticas, mas ali a vendo, desejei saber mais das morfológicas. Ao entrelaçar meus dedos aos dela eu notei que tudo bem aprender mais sobre análises morfossintáticas.
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