Quarta-Feira. Sete horas da manhã. Ano da graça de Nosso Senhor 1995. Crianças estão com a mão direita sobre o peito cantando o hino nacional.
Quinta-Feira. Nove horas e trinta e sete minutos da manhã. 2019, um ano sem graça. Um adulto sentado de fronte ao computador lendo medidas absurdas do novo governo.
A reportagem [1] diz que o governo deseja que as escolas se voluntariem para um novo modelo de ensino "Cívico-Militar" que não é explicado, definido ou sequer apresenta uma resenha. Muitos defendem, outros criticam, eu faço parte dos outros. As melhores escolas do mundo apresentam um modelo de liberdade de aprendizagem [2], o modelo "open plan", muito mais participativo, uma desconstrução do modelo onde o professor fica na frente da sala vomitando informações para os alunos.
O presidente eleito defende a ideia de que a ideologia é ruim para o Brasil... Eu ainda não sei de qual Brasil ele está falando. Essa minha dúvida pode parecer uma crítica, e é, mas depois que ele ganhou a eleição e não havia mais nada a se fazer quanto a isso, eu decide dar uma chance a esse governo, mesmo que os militantes pseudo-religiosos da chamada direita insistam que pessoas com a minha linha de raciocínio deveriam ir para Cuba ou Venezuela, por razões que eu ainda não entendo, afinal se eles ficaram aqui durante 14 anos da gestão ideológica do Partido dos Trabalhadores por que não foram embora para, seja lá qual, país que eles achem mais de direita? Então diga ao povo que eu fico!
Militarizar as escolas é uma forma de ideologia. Eu gosto de Engenheiros do Hawaii, e há uma musica de deles que diz: "Me obrigue a morrer, mas não me peça para matar" [3]. Se qualquer tipo de alinhamento politico-social for aplicado ao ensino ele será ideológico. A liberdade e alternância dos professores durante as fases de vida do estudante devem ser melhores para o seu desenvolvimento do que um único modelo conservador de ensino. Talvez os professores sejam comunistas, mas outros serão liberais, alguns religiosos, outros ateus... É bom para as crianças crescerem com a diversidade, palavra essa ameaçada de extinção. É quase voltar a 1984, o livro não o ano, que excluindo as palavras se exclui as oportunidades de realizar criticas... Isso se não tivéssemos voltado a 1964, o ano não o livro. Não é por que as pessoas dizem que são a favor de uma escola sem partido, ou ideologias, que isso é verdade. Nos aqui somos adultos, não acreditamos em mitos, salvadores ou metafísica, né? Beleza.
A doutrinação das crianças ocorre desde que existem crianças e desde que existem doutrinas, escolha a do seu filho, mas tente não colocar o meu no mesmo saco. Ao ler o prefácio do Trivium da editora É Realizações, José Monir Nasser nos apresenta uma clara diferenciação entre ensino e educação. Se as pessoas querem que a escola não dê educação para o seus filhos, mas ensino, então não é pelo caminho da militarização que vamos atingir esse ideal.
Para fechar esse meu lamento, acredito que militares são condicionados a obedecer sempre e sem questionar. Não importa que tipo de idiota você tenha acima de você. A escola não é um lugar para isso, ali a melhor forma de rebeldia, a melhor forma de se aprender é questionar tudo e todos, ali é o lugar para isso. A escola não é o lugar de se restringir as capacidades dos alunos por que o modelo atual de sociedade não entende. A escola é o lugar de sempre se perguntar "Por que?" e não de abaixar a cabeça para uma ideologia militar, cristã, esquerdista... escolha a sua favorita e acrescente a lista. Pense, pense sempre, pergunte sempre, não permita que o medo das pessoas retire a sua curiosidade. É problema delas se querem viver doutrinadas e presas a conceitos polarizadores como ir para a direita, a esquerda ou o centro. Retire o melhor que achar de tudo e se desenvolva a partir disso...
E se mandarem você para algum lugar que não seja a sua casa, pergunte por que eles não foram embora também? Nenhum país que possuem de exemplo os quiseram? Ou só ficaram por aqui mesmo? Então eu também só vou ficar...
Dê um beijo nas crianças por mim.
[3] Nunca se sabe
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