sexta-feira, 22 de março de 2019

... e tocava um velho blues sobre uma estrada iluminada...

Ela: Eu li seus textos esses dias. Eu li sobre a ruiva.
Eu: É, e o que achou?
Ela: Normal. Segue a vida, né?
Eu: Ciúmes morena?
Ela: Não. Foi você quem disse que não ia namorar ninguém que não fosse eu.
Eu: Não estou namorando.
Ela: Não parece... Já me esqueceu?
Eu: Todos os dias morena, todos os dias eu tenho de te esquecer.

A conversa foi confusa, eu nunca sei se ela me ama ou se gosta de ser elogiada. Depois falamos do dia-a-dia, e eu odeio esse tipo de conversa, em geral não me importo com a vida alheia. Contudo, as histórias de ônibus, do metro, da fila do cinema, das decisões tomadas dentro de lojas, da comida boa e a ruim dos restaurantes, dos clientes legais e os chatos... Tudo isso vindo dela me apreendia a atenção, afinal lembrei de escrever sobre esses assuntos.

A cor da pele, a forma da boca, o timbre da voz, o olor. Tudo isso ainda me fazia de um cara tão esperto agir como menino perto dela. Eu poderia descrever as roupas, o ondulado dos cabelos, os resveladiços, mas dessa vez hei de guardar para mim. Sem propagandas hoje...

Ela: Me leva embora?
Eu: Claro.
Ela me deu a mão dentro de um shopping, nunca havia acontecido, e com sua graça e poesia me carregou para fora arrastado. Pediu um sorvete num quiosque e me mandou pagar.

Um beijo gelado em uma noite quente.

Dedos entrelaçados. Eu sorria enquanto eu a beijava, foi um ósculo confuso. Ela me perguntou o por quê de eu rir. Ergui nossas mãos dadas e disse com a voz mais metálica e parecida com a do Wall-E que eu pude: Eva... nas ruas iluminadas da cidade tocava um blues velho regado com lembranças e oportunidades... Pena que eu vou estragar tudo. Como sempre...

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