Ela: Eu li seus textos esses dias. Eu li sobre a ruiva.
Eu: É, e o que achou?
Ela: Normal. Segue a vida, né?
Eu: Ciúmes morena?
Ela: Não. Foi você quem disse que não ia namorar ninguém que não fosse eu.
Eu: Não estou namorando.
Ela: Não parece... Já me esqueceu?
Eu: Todos os dias morena, todos os dias eu tenho de te esquecer.
A conversa foi confusa, eu nunca sei se ela me ama ou se gosta de ser elogiada. Depois falamos do dia-a-dia, e eu odeio esse tipo de conversa, em geral não me importo com a vida alheia. Contudo, as histórias de ônibus, do metro, da fila do cinema, das decisões tomadas dentro de lojas, da comida boa e a ruim dos restaurantes, dos clientes legais e os chatos... Tudo isso vindo dela me apreendia a atenção, afinal lembrei de escrever sobre esses assuntos.
A cor da pele, a forma da boca, o timbre da voz, o olor. Tudo isso ainda me fazia de um cara tão esperto agir como menino perto dela. Eu poderia descrever as roupas, o ondulado dos cabelos, os resveladiços, mas dessa vez hei de guardar para mim. Sem propagandas hoje...
Ela: Me leva embora?
Eu: Claro.
Ela me deu a mão dentro de um shopping, nunca havia acontecido, e com sua graça e poesia me carregou para fora arrastado. Pediu um sorvete num quiosque e me mandou pagar.
Um beijo gelado em uma noite quente.
Dedos entrelaçados. Eu sorria enquanto eu a beijava, foi um ósculo confuso. Ela me perguntou o por quê de eu rir. Ergui nossas mãos dadas e disse com a voz mais metálica e parecida com a do Wall-E que eu pude: Eva... nas ruas iluminadas da cidade tocava um blues velho regado com lembranças e oportunidades... Pena que eu vou estragar tudo. Como sempre...
sexta-feira, 22 de março de 2019
terça-feira, 12 de março de 2019
Medida Nova...
Ela passou por mim, eu estava atrás da coluna que ajudava aquele prédio a ficar de pé. O vestido balançava e eu podia ver as rimas da redondilha... a medida nova intercalada entre as silabas tônicas e aos a, b, a, b, a, b, a, b, c e c.
Eu lia as panturilhas sob os joelhos, os pés sobre as sandalhas, e o sujeito oculto sob a bainha do vestido era presumível e admirável. O latifúndio dorsal estava a mostra, como biquínis e estatísticas que revelam coisas interessantes, mas escondem o essencial. Eu lia as costelas e a coluna despontando e forçando a pele a criar resvaladiços. A cada fechar de olhos eu via a água correndo por ali contornando as formas, descendo para terras mais baixas, enchendo lagos e mares... mare nostrum.
Ela parou e os versos brancos tiveram a sua vez. O pescoço sinuoso separando cabeça de corpo. Os cabelos balançando como palavras nas mãos de um modernista e com o rosto descrito por um barroco.
A poesia estava ali escrita com olhos, lábios, nariz, maçãs, dentes, orelhas, voz e graça. Rimas simples voavam com a expiração dela. O peito subia cheio de ar e depois descia suavemente, de modo lento como alguém que procura palavras em um dicionário.
A prosa mostrava movimentos coordenados, de alguém que por anos balançava o vento e não o contrário.
Eu decidi me levantar, ela me viu e sorriu. Um sorriso grande, bonito e cheio de adjetivos. Os substantivos, todos concretos, balançaram também. Os verbos atuavam e a traziam em minha direção. As preposições uniam todo aquele conjunto dando forma, beleza e sentido a tudo isso.
Sempre preferi as análises sintáticas, mas ali a vendo, desejei saber mais das morfológicas. Ao entrelaçar meus dedos aos dela eu notei que tudo bem aprender mais sobre análises morfossintáticas.
Eu lia as panturilhas sob os joelhos, os pés sobre as sandalhas, e o sujeito oculto sob a bainha do vestido era presumível e admirável. O latifúndio dorsal estava a mostra, como biquínis e estatísticas que revelam coisas interessantes, mas escondem o essencial. Eu lia as costelas e a coluna despontando e forçando a pele a criar resvaladiços. A cada fechar de olhos eu via a água correndo por ali contornando as formas, descendo para terras mais baixas, enchendo lagos e mares... mare nostrum.
Ela parou e os versos brancos tiveram a sua vez. O pescoço sinuoso separando cabeça de corpo. Os cabelos balançando como palavras nas mãos de um modernista e com o rosto descrito por um barroco.
A poesia estava ali escrita com olhos, lábios, nariz, maçãs, dentes, orelhas, voz e graça. Rimas simples voavam com a expiração dela. O peito subia cheio de ar e depois descia suavemente, de modo lento como alguém que procura palavras em um dicionário.
A prosa mostrava movimentos coordenados, de alguém que por anos balançava o vento e não o contrário.
Eu decidi me levantar, ela me viu e sorriu. Um sorriso grande, bonito e cheio de adjetivos. Os substantivos, todos concretos, balançaram também. Os verbos atuavam e a traziam em minha direção. As preposições uniam todo aquele conjunto dando forma, beleza e sentido a tudo isso.
Sempre preferi as análises sintáticas, mas ali a vendo, desejei saber mais das morfológicas. Ao entrelaçar meus dedos aos dela eu notei que tudo bem aprender mais sobre análises morfossintáticas.
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