quarta-feira, 16 de setembro de 2015

S04E09 - A piada mortal - Cenas de pires sacrificados...

Pedro chegou em casa cansado do dia de trabalho. Seu rosto abatido por passar o dia tentando bater metas e as reclamações do serviço eram tudo o que ele tinha de conversa. Contudo, ele tinha escolhido uma mulher para passar o resto dos seus dias e ela tinha necessidades de mulher. Penélope precisava conversar, comer e dormir com o homem que tinha escolhido para ser o último em sua cama. Ela estava cansada das conversas sobre trabalho e o desanimo de seu marido, ela via o casamento se matando pelo dia-a-dia, afogado em detalhes que antes nem dava atenção, como o controle da televisão que não ficava mais no mesmo lugar. Nenhum dos dois daria atenção a esse fato seis meses atrás, mas os problemas grandes haviam se tornado extensões da rotina; e temos o costume de nos acostumarmos com tudo... Mesmo os problemas grandes...
Pedro entrou em casa como todos os dias, colocou a chave sobre um gancho na porta, atirou sua pasta e casaco sobre um lado do sofá e sentou no outro, ligou a televisão, mas teve de ir até ela, pois não fazia ideia de onde o controle estava, e se pôs a assistir um filme aleatório. Então veio o som da primeira “corneta”: Pow!!!
Pedro: Eita! O que foi isso?
Penélope: Pedro! Venha cá!

Ele se levantou como se a mãe dele tivesse gritado e o chamado, pode-se dizer que até mesmo algum medo infantil emergiu dele, um senso de urgência, como se tivesse deixado uma toalha molhada sobre a cama. Foi até a cozinha e encontrou Penélope com um martelo na mão, um pires destruído sobre a mesa e seu rosto deformado pelas linhas de expressão em um claro convite as portas do inferno; mas de Penélope, não de Rhodin.

Penélope: Precisamos conversar!
Pedro: Tudo bem, mas o que o pobre do pires te fez?
Penélope: Sem piadas! Sente-se!
Pedro: Eita! O que foi que eu fiz?

Pow! Outro pires foi sacrificado, enquanto os olhos de Pedro quase pularam das orbitas. Ele puxou a cadeira e se sentou. Ela continuava de pé empunhando o martelo como Thor deve ter feito muitas vezes com seu Mjölnir.

Pedro: O que está acontecendo?
Penélope: Hoje é o décimo dia que você chega e não me dá nem um “oi”, se joga no sofá e vai assistir qualquer coisa antes de tomar banho e dormir. Não pergunta nada para mim, não fala comigo, só se joga no sofá.
Pedro: Eu ando cansado. O trampo está muito puxado nesse fim de semestre.
Penélope: Eu também ando cansada, mas eu chego em casa, cozinho e arrumo o que dá para arrumar esperando você chegar para conversarmos e dormimos juntos, mas eu ando indo dormir sem você.
Pedro: Afe! Eu te disse que estou cansado! Não quero falar do seu trabalho. É muito chato e...

Pow! Um terceiro pires foi destruído pela potência da martelada que rimbombou até os confins do quintal. Um silêncio sepulcral; até os cães começarem a ladrarem.

Penélope: Pedro, eu quero a minha vida de volta. Você tem de conversar comigo, você sabe que não pode deixar seus problemas cruzarem aquela porta. Você não se casou com eles, mas comigo e eu preciso de você...
Pedro: Eu... Eu ando cansado. Me desculpe. Isso não é desculpa para o que anda acontecendo. Vou até a sala desligar a TV. Sentamos, comemos e conversamos a moda antiga. Pode ser?
Penélope: Pode.

Pedro foi até a sala, olhou a televisão com pena e a desligou. Volveu os olhos para a cozinha, ergueu os olhos ao céu e fez uma prece rápida. Ele não pediu por paciência, dinheiro ou o fim da fome no mundo, neste momento ele só queria uma conversa rápida, tomar banho e ir dormir.

Eu mesmo me pergunto: É demais querer isso?

Pedro: Mulher, se vamos conversar você podia guardar esse martelo.
Penélope: Posso.

E ela foi até a pia e deixou o martelo. Se virou para o homem que escolheu para passar o resto do seus dias, sorriu.

Penélope: Ainda bem que você me parou no terceiro pires, as xícaras desses já tinham quebrado. Eu tava com medo de ter de que quebrar os pires com xícaras inteiras.
Ambos sorriem e até riem. Conversam sobre o dia, sobre seus pais, sobre o trabalho, mas foi uma conversa rápida. Ela vai para o banho, ele lava a louça, ela vai para o quarto, ele para o banho e depois para o quarto também.
No dia seguinte ele chega atrasado e seu chefe vem ao seu encontro interpelar sobre isso.

Chefe: O que aconteceu Pedro? Por que você está chegando agora?
Pedro: Tive de resolver umas coisas com a mulher.
Chefe: Tá tudo certo?
Pedro: Agora sim. Ela me lembrou do que é realmente importante.
Chefe: E o que é?
Pedro: Que eu trabalho para viver e não o inverso.
Chefe: (Risos) Ta. Mas ainda assim temos metas para fechar e ninguém sai hoje até fechar elas.

Um dia de trabalho e as oito horas de trabalho as que Pedro se sujeita todos os dias parecem pouco para as metas. Ele olha o relógio, fecha a gaveta, levanta-se e desliga o monitor do computador. Seu chefe se levanta da mesa atrás dele e pergunta:

Chefe: Já fechou as metas hoje?
Pedro: Não consegui.
Chefe: Então senta e volte ao trabalho.
Pedro: Hoje não. Minha mulher brigou comigo ontem, preciso lhe dar mais atenção.
Chefe: Você quem sabe. Quer ir? Vai, mas depois não reclame se perder as comissões. Ai sim ela vai brigar com você. Agora, vai pra casa, até amanhã.

Pedro saiu do escritório e foi até a esquina onde uma floricultura ficava, entrou na loja e pediu duas rosas vermelhas. Abriu a porta pensando no que diria, mas não havia mais tempo para formular uma desculpa para aquilo, então relaxou mentalmente e deixou que as palavras surgissem como sempre havia sido. Sentado com uma mesa ao fundo da sala estava seu chefe ainda com a cara fechada. Pedro chegou ao seu lado e estendeu uma das rosas.

Pedro: É para você se desculpar.
Chefe: Ta doido? Me desculpar pelo que? Não te fiz nada e ainda te deixei sair mais cedo. E pra que essa rosa? Ta me achando viado?
Pedro: A rosa é para você... Mas é para você dar a sua mulher e se desculpar por esses dias chegando tarde e indo dormir sem falar com ela. Eu sei como é, também tenho feito as coisas assim. Aceite a rosa, vá pra casa mais cedo e amanhã nos esforçamos mais.
Chefe: Vai embora Pedro. Vai dormir e para de viadagem.
Pedro: Vou deixar a rosa sobre a minha mesa. Amanhã estarei aqui uma hora mais cedo para compensar o atraso de hoje de manhã e sairei mais tarde para compensar minha saída antes de fechar as metas diárias. Até amanhã.

No dia seguinte Pedro chega mais cedo e começa a trabalhar mais calmo. As horas passam e seu chefe chega duas horas depois do seu horário de entrada.

Pedro: E ai? Aconteceu alguma coisa? O senhor está bem?
Chefe: Não... Tenho de descobrir onde comprar rosas agora.

Eu mesmo me pergunto: É demais querer isso? E eu mesmo me respondo: É. Lembra quando os Silvas se casaram? Eles chamaram todos os seus amigos, seus pais, familiares e Deus para a cerimônia. Não há mais espaço para a solidão, tudo deve ser compartilhado entre os dois. Mesmo uma semana ruim... Mesmo um dia ruim...

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