sábado, 19 de setembro de 2015
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia...
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
S04E09 - A piada mortal - Cenas de pires sacrificados...
domingo, 13 de setembro de 2015
Esta velha angústia
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!
Sobre mim... más noticias...
Feminina
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Pierre-Joseph Proudhon (Analetos)
Receita de mulher
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
domingo, 6 de setembro de 2015
Humanidade para meninos...
Que todo esse tempo errando e corrigindo vai se tornar sabedoria?
E se meus esforços e trabalho não renderem os lucros?
Seguirei em frente, pois não há mais nada que um homem
possa fazer a não ser aguentar o peso do mundo,
como se fosse um Hércules substituindo um Atlas,
ou mais perto da verdade, um Hamlet simulando um Hércules.
Um homem tem de fazer o que tem de fazer,
e um homem não deve se desviar de seu caminho.
Aguentar é o que todo homem tem de fazer,
mas nada é mais belo para a espécie humana
do que o altruísmo.
A coragem só é definida pelo sucesso,
quando os tolos tentam defini-la,
pois o sucesso faz de um homem corajoso,
mas o fracasso faz dele um tolo.
Quando um homem sábio define a coragem, fazê-o assim:
"Quem diz ser corajoso o tempo todo e foge quando sente medo
é um mentiroso. Não existe nada abaixo dos covardes.
Quando sentires medo, lute consigo mesmo, é a vitória mais importante".
Não importa se tu não és inteligente, confie no trabalho duro.
Se não chegar ao seu objetivo, não desista,
pois acabaras por descobrir outro caminho para não seguir.
Sê integro e desenvolva caráter.
Encontre uma mulher que valha a pena.
Gaste teus recursos e tempo nessa empreitada, e
não acredite que todas são iguais, em verdade, elas são
tão diferentes como Beatriz é de Virgílio, na Comédia.
Lembre-se sempre que ela é a única pessoa que tu não deves magoar.
Lembre-se sempre que ela é diferente de ti, mas que se completam.
Lembre-se sempre que ela é humana e merece perdão e admoestação.
Lembre-se que ela pode fazer o mesmo por você...
sábado, 5 de setembro de 2015
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Vez por outra
Eu te vi sorrindo naquela dia de sol,
correndo na minha frente e olhando para trás
vez por outra, parecia duvidar que eu estava ali,
como se eu não estive sempre atrás de você.
Um sorriso fácil que quase me fez
acreditar que era fácil tomar-te um riso,
uma risada gostosa ou uma gargalhada despreocupada,
uma daquelas que pessoas livres costumam dar.
Uma corrida de infantes, sem pressa
ou vontade de sair da presença de alguém.
Era mais para transformar sentimentos em
movimento, em ações, em vida.
Um volver de pescoço e lá tu estavas de novo.
Com esse sorriso de menina lapidado
num rosto de mulher. Uma piscada para trás
e meu tempo vira quando, quando tu quiseres.
Uma duvida boba em uma mulher bela.
Acho que sorri quando te vi sorrir,
só assim explico seu sorriso virar risada e
aquele fechar de olhos lento e abusado.
Por incrível que pareça não sou o homem
de paixões de que me chamaram,
e também não sou um homem de amores
da alcunha que me negaram.
E eu estava ali atrás de ti de novo.
vendo tu correr na frente, olhar para trás
sorrindo e rindo.
Fazendo me perder de onde fugi.
Não me são caras as paixões, nem os amores que tive,
tão pouco as alcunhas que me deram ou negaram...
Eu sou um homem de amor, mas assim mesmo,
amor, no singular.
Corre morena, corre, pois ali, no banco
em frente eu tenho um colo para ti,
uma poesia improvisada e uma miríade de
ósculos, daqueles de amor...
