Eu me lembro de estar deitado na cama olhando para o teto. O vento da janela parou de forçar as páginas de um livro que estava sobre o criado mudo. Sentada sobre o para peito estava uma menina de cabelos loiros, que se agitavam com um vento que não estava mais lá. Ela volveu o rosto para mim e disse:
- Oi, você se lembra de mim?
- E agora que a ouve como você se sente?
- Na mesma. A voz não me era tão cara assim, essa história de que tudo importa quando se perde algo é mentira. O cotidiano mata tudo.
- Hum, você ainda é um velho rabugento.
- Eu sei, mas superar uma perda pode ser impossível, recomeçar é inevitável.
- Frases prontas. Ainda se acha o dono da verdade?
- Não, ando desesperado, pois sou mais tolo do que achei que seria na idade que tenho hoje.
- É, você não fez tudo o que tinha de fazer.
- Não fiz.
- Você se arrepende?
- Não.
- Faria tudo diferente se pudesse?
- Com certeza.
- E você seria mais feliz?
- Talvez, mas não existe "se" na história. As coisas são o que são.
- Você não está tão burro quanto eu tinha pensado.
- Eu te disse que não são tão sábio quanto queria ser, não que eu seja um fátuo por completo.
- (risos) Você nunca vai mudar né?
- Vou sim. Hoje sou um cara diferente de ontem. Sem ser rude... O que tu queres?
- Vim ver você. Como anda, o que anda fazendo, se já ama de novo, se tem filhos, se é mais feliz do que triste.
- Ando bem. Estudando e trabalhando. Não amo ninguém. Não tenho filhos. E sou mais feliz do que triste.
- Que bom. Eu estava me lembrando da fatalidade, da primeira, o que você fez depois daquilo?
- Descobri que Deus não existe e segui minha vida.
- E depois da segunda fatalidade?
- Descobri que a humanidade não vale nada.
- E depois da terceira?
- Descobri que amor não é paixão.
- E depois da quarta?
- Que ser feliz não é um direito que se ganha ao nascer, que não é a obrigação apresentada por esse mundo. Felicidade é uma conquista.
- Sempre tão dramático você.
- Li muito Shakespeare.
- Sempre com desculpas e respostas prontas.
- Maquiavel dizia que se tem de imaginar as batalhas antes de torná-las ações. Eu imagino diálogos.
- Já sabe que o que vai fazer daqui para frente?
- Sim.
- Vai me fazer perguntar o que é né?
- Não, você pode escolher não perguntar.
- Sempre chato. O que você vai fazer?
- Vou viver... Levar essa vida que me deram do meu jeito, como sempre fiz.
- E se você não conseguir?
- Faço da busca um encontro.
- (risos) Você é muito chato!
- Eu sei. Bom... você vai me dizer quem é? E por que está usando essa aparência?
- Finalmente um pouco de interesse por sua parte, eu já estava ficando chateada com a sua falta de interesse. Eu sou aquela coisa que separa a verdade da mentira, mas sou a própria verdade e a própria mentira. A força do forte e a fraqueza do fraco. Sou as leis deste mundo, o conto de fadas, a esperteza do inteligente e a tolice do ignorante. A variedade da unidade e a unidade da variedade. A fome de justiça, a fome do corpo, a fome das mãos. A chuva que iguala a humanidade. O sol que joga Ícaro dos céus. A vingança de Hamlet, a imprudência de Lear, o medo de Otelo, o desrespeito de Romeo e Julieta aos conselhos dos pais. Sou a justiça dos altruístas, a sabedoria dos velhos, a coragem de Ghandi, o respeito ao próximo. Sou o acordo social de Rosseau, o método de Descarte, a fé de Tomás de Aquino, o martírio dos que acreditam e a tormenta dos covardes. Sou o riso das crianças e a censura d'O Nome da Rosa. Contudo, para você, eu sou os três pontos, o plano, as idéias, a ideia cento e um.
- Imaginei que sim...
- Antes de eu ir, afinal já vi como você está, quer me perguntar algo?
- Não.
- Muito chato você! Eu vou embora, mas antes eu queria te dizer umas coisas (já que você não pergunta mesmo). Eu me lembro dos seus dezesseis anos, quando você perdeu a fé em Deus. Eu me lembro dos seus dezessete anos, quando você virou adulto ao formular pensamentos em palavras e deixou de visualizar só imagens. Eu me lembro dos seus dezoito anos, quando você começou a trabalhar, e estudar de verdade. Eu me lembro dos seus dezenove anos, quando você aprendeu a amar. Eu me lembro dos seus vinte anos, quando você decidiu que aquela seria sua mulher para sempre. Eu me lembro dos seus vinte e quatro anos, quando você perdeu a fé na humanidade. Eu me lembro dos seus vinte e cinco anos, quando você trocou o amor da sua vida pela sanidade. Eu me lembro dos seus vinte e seis anos, quando você decidiu não ver esse mundo sem estar bêbado. Eu me lembro dos seus trinta anos, quando você descobriu sua integridade. E estou louca de curiosidade para saber o que vai resumir esse ano de agora! Só o que posso deixar para você é: você chegou na "terra do faça o que quiser", parabéns! Mas antes de andar pelos prados e a orla, eu queria te contar as três regras desse lugar. Primeira, cada ação tem uma reação, pura física. Segunda, você é responsável pelas suas ações e omissões, seja sábio. Terceira, e última, sê inteiro, nada teu exagera ou exclui, sê todo em cada coisa, põe o quanto és no mínimo que fazes...
- Hum... Quem está de frases feitas agora?
- Você entendeu.
- Beleza... Durma bem cabeção.
- Viva bem, seu chato!
Pisquei e não havia mais os cabelos louros, nem os olhos azuis escuros.
Um pequeno sorriso de Galileu, um volver de olhos de cigana dissimulada e coloquei as mãos atrás da cabeça, sobre o travesseiro. Essa noite eu não ia precisar de cadernos velhos, essa noite era minha e dormi como quem se conhece... uma noite sem sonhos.
Um pequeno sorriso de Galileu, um volver de olhos de cigana dissimulada e coloquei as mãos atrás da cabeça, sobre o travesseiro. Essa noite eu não ia precisar de cadernos velhos, essa noite era minha e dormi como quem se conhece... uma noite sem sonhos.
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