Personagens
Denise -
Cena 2 - As merdas de cada um.
(No bar)
A vida é um grande oceano de merda onde cada onda bate no corpo, nos joga dentro dela e nos faz engolir toda a sujeira que jogamos fora de volta para nossas bocas. Sempre que a onda volta para o oceano e enfio dois dedos na garganta e tento vomitar. Contudo, o gosto fica na boca, o cheiro fica nas narinas e a cremosidade fica entre os dedos.
Há um velho ditado que diz que quando o discípulo está pronto o mestre surge, sei lá, eu queria que Helena viesse em um cavalo branco e como um príncipe ela me salvasse, sim eu sei, as coisas estão invertidas, eu deveria ter um cavalo branco, uma armadura dourada, uma puta espada na cintura e ir tomá-la do dragão, mas as coisas são complicadas. Não se engane, toda vez que alguém lhe disser que as coisas são simples e fáceis, afaste-se dele, pois é mais um idiota e já os temos em demasia no mundo, você não precisa levá-lo para a sua vida.
Eu olho para a porra do copo e a cerveja não tem um gosto bom, eu sei que esse dedo de cerveja no fim do copo nega a minha afirmação. Se eu encho a boca de merda a cada onda não será o gosto ruim da cerveja que vai piorar as coisas.
Denise: Victor! Já bebendo?
Victor: Não. Estou apenas olhando para um copo vazio agora.
Denise: Quer que eu pegue mais cerveja para você?
Victor: Por favor.
Ela pega o meu copo e vai em direção aquelas coisas mágicas que fazem fontes de água cristalina com um arco-íris no fundo parecer um vídeo de "Two girls and a cup", assista e depois me agradeça. Aquelas coisas mágicas chamadas de torneiras ligadas a barris de onde sai a linda a cerveja. Ela enche o copo até que escorre o líquido pela borda do copo, igual no vídeo das meninas, ela passa o fundo sobre um pano tão usado quanto o copo das meninas, e sorridente, Denise vem me trazer o milagre em forma líquida.
Denise: Aqui está.
Victor: Obrigado.
Denise: E aí. Como foi o seu dia?
Victor: Ótimo.
Denise: Mentiroso.
Victor: Eu nunca minto.
Ela ri. Eu não.
Denise: Fala ai o que esta te magoando, talvez eu possa ajudar.
As pessoas têm sempre disso, ela não quer me ajudar, pois se o quisesse ficaria calada e só traria a porra da cerveja para mim, não, ela quer falar, ela precisa que eu lhe dê a ponta da linha. Então ela pega qualquer afirmação minha para comparar com a vida dela e começar a falar dela e dos problemas dela. Hoje, eu não estou com saco para ouvir gente falando de si mesmo. Hoje, eu tenho minhas próprias merdas para lidar e limpar.
Victor: Duvido.
Denise: Fala ai, sou muito boa em aconselhar.
Victor: E quem não é?
Denise: É sério. Todos os meus amigos me pedem conselhos.
Eu queria muito dizer que não era amigo dela e que qualquer opinião dela sobre quaisquer aspectos da minha vida é irrelevante, mas eu não deveria descarregar a minha raiva nela. Decidi falar sobre os problemas de nosso salvador. Daquele que morreu por nos e depois de três dias saiu voando para o conforto e beleza dos céus e esqueceu que não podemos voar também.
Victor: Bom, se é assim... Beleza. Estou achando que um amigo vai me entregar para o meu chefe. Eu disse que poderíamos conviver melhor no trabalho se parássemos de discutir o tempo todo e nos ajudássemos. O trabalho é muito competitivo e a maioria lá está tentando ganhar em cima dos outros.
Denise: E o que o seu chefe acha disso?
Victor: Ele acha que todo mundo é adulto e deve cuidar de si mesmo.
Denise: Mas as pessoas são diferentes, algumas não conseguem se guiar sozinhas.
Victor: Foi o que eu disse ao meu amigo, além de que deveríamos ajudar os que são mais lerdos.
Denise: Sim, sim. Parece uma boa ação. Por que o seu amigo não gostou da ideia?
Victor: Acho que ele é muito egoísta. Se eu e ele trabalharmos meia hora a mais podíamos ajudar metade dos mais lerdos.
Denise: Só meia hora? E ele não quis ajudar os outros?
Victor: Não.
Denise: Nossa, aqui é assim também, ninguém quer trocar meia hora de trabalho comigo. Se eu pudesse entrar meia hora mais tarde eu poderia sair da faculdade no horário.
Ela subiu na vassoura, mas fui eu quem gritou: "E lá vamos nós!".