quarta-feira, 6 de abril de 2016

Algum astronauta estava tocando um rock'n roll cheio de ciência...

"Ela fechou as minhas malas ontem a noite, antes do voo" e eu nunca voei sozinho ou com ela. Era um adeus curto, um daqueles abraços com medo se tocar, um beijo mal dado, um frio na pele de quem não se aquece mais ao ver quem ama. "Não sabia que horas eram a visibilidade era pouca". Eu olhei no relógio quando ela partiu: "Zero hora. Nove da manhã.". Eram nove da manhã e meu dia havia acabado.

"Eu sinto saudades da minha esposa" e de mim mesmo, mas sinto ainda mais falta da primeira pessoa do plural que usávamos como se fosse a do singular. Parece que um pedaço importante de mim foi-me arrancado, não um braço, uma perna, coração ou cabeça... uma peça importante mesmo. Dentro de nós há uma esfera resistente ao mundo, as pessoas e a deuses, isso é o que chamamos de integridade. Ela não tem nome, título, endereço ou telefone, mas ela está lá, faz parte de nós. Gritamos, guerreamos, choramos, lamentamos, sofremos, felicitamo-nos quando ela é tocada por outro ser humano. "É solitário no espaço", ela levou um pedaço da minha integridade "voando sem tempo".

"E acho que vai demorar muito, muito tempo até que o pouso me traga de volta para descobrir que não sou o homem que acham que sou em casa", ela não estará mais lá. Não havia o por quê de eu me preocupar, mas ainda sim eu me preocupava. "Inclinei-me sobre o meu rádio" e "algum gato estava tocando um rock'n roll cheio de alma". A música era boa, muito boa e eu repetia o refrão "Ah, não, não, não. Sou um astronauta, astronauta, queimando seu fusível".

Eu olhei para cima, sou ateu, mas se há um deus ele não deveria se lembrar de mim agora? Não era nesse momento que ele deveria me salvar? "Eu sinto saudades de minha esposa".

There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds

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