Os dedos sob as luvas procuram teclas de cores neutras, entre o branco e o preto há mais de duzentos tons de cinza.
Os dentes sob a mascara procuram não quebrar sob a pressão, entre a irritação e o repudio há mais de dez emoções.
Os olhos pretos rodeados de um branco cadavérico e um sorriso sempre disposto a contagiar gente podre diz:
"Meu nome é como essa mascara.
Chamam-me, os mais doutos, de Comédia.
Outrora eu fui Arlequim, de pó na cara e
batom nos lábios. Antes fui um Clown
de sapatos largos e seguindo a moda.
Tive por amigos dezenas de Pierrôs,
enamorei dezenas de Arlequinas.
Meu pai não sabia ler, por isso não podia conversar,
minha mãe só lia novelas, por isso nunca viveu.
Eu tiro a luva e o que tu vês:
Balas de batom e projeteis de fuzis.
Sob a mascara eu não tenho rosto,
olhe cá e me diga o que você vê?
Neste espelho que tenho por face."
Ele aperta a gravata e se apruma, joga a cauda de seu fraque por sobre o banco e se senta em frente ao piano.
"Há uma lâmpada quebrada para cada coração neste baile... A vida é um jogo cheio de regras, mas com juízes ausentes. Luzes quebradas em um céu sujo e escarninho laçam rotas esperanças sob pessoas cegas. Dão-te uma fantasia apertada no pescoço, uma mascara com a sua própria face sorrindo e um resumo da peça. Depois te jogam no palco e pedem que improvise nesse terrível baile de mascaras."
Toca e canta:
"Acordo de manhã e não leio as noticias,
pois tudo o que importa se encontra do lado
de dentro de mim mesmo.
Não acaricio bichanos pelo chão, não canto nas ruas,
pois somente os porcos e sujos vivem suas vidas.
Sem meus heróis televisivos não sei viver,
eu ainda não descobri que vou morrer e
não me importa saber quem mudou o mundo
com seus moinhos de vento.
Neste baile de mascarados,
não há heróis ou necessidades,
só mascaras.
"Não tenho o direito de ser triste.
Se não sorrio todo dia e não uso camisetas rosas,
obviamente, é por que não sou feliz.
E um monte de gente regada à drogas que
entorpecem os sentidos, usando a química
para continuar sorrindo essa vida de imbecis
me carregam ao inútil do terapeuta,
que por trinta moedas de prata vai me lamber as bolas
e mentir sobre a minha importância no mundo.
Neste baile de mascarados,
não há pessoas tristes,
só mascaras.
"Preenchendo formulários sem leitores,
vendendo a produção de outras pessoas,
mentindo sobre os resultados,
batendo pregos na tabua de madeira,
trocando as peças boas por ruins,
atendimento impessoal e a distância,
cobrando mais que o preço justo,
roubando a tinta das impressoras.
É assim que trabalhamos, dizendo aos
outros quem é o mais esperto e pode
roubar, enganar e ganhar mais.
Neste baile de mascarados,
não há trabalhadores,
só mascaras.
"Não posso amar quem meu coração pede,
pois nasci para tomar o sorvete de chocolate,
nunca o de morango.
Meus carrinhos e soldadinhos estão lá
desde a infância para me dizer do que gostar.
Quantas mais eu fodo, quantas mais abandono,
eu sou um homem. Eu fodo para mostrar
o quanto sou homem aos amigos.
Reclamo da liberdade por medo de me sentir livre.
Não sei quem sou, então quero que ninguém seja alguém.
Neste baile de mascarados,
não há homossexuais e oprimidos,
só mascaras.
"Não posso amar quem meu coração pede,
pois nasci para tomar o sorvete de morango,
nunca o de chocolate.
Minhas panelinhas e bebezinhos estão lá
desde a infância para me dizer do que gostar.
Quanto menos eu me entrego, quanto menos abandono,
eu sou uma mulher. Eu fodo para mostrar
o quanto sou mulher aos amigos.
Reclamo da liberdade por medo de me sentir livre.
Não sei quem sou, então quero que ninguém seja alguém.
Neste baile de mascarados,
não há mulheres ou feminismos,
só mascaras.
"Nasci negro e pobre, as costas de meus avôs
ainda estão marcadas com ferro.
Essa gente branca e ignorante
sempre reclamando da divisão dos direitos.
Fecho-me aqui dentro e grito meu ódio ao seu ódio.
Meritocracia é nascer rico, quem nasce pobre e negro
tem o mérito de sofrer por isso.
Neste baile de mascarados,
não há negros e méritos,
só mascaras.
"Há perversos e danosos, mas nunca veados,
judeus ou pretos neste carnaval de bastardos.
Neste vil baile de mascaras, todas brancas,
todas sorrindo, todas iguais...
Neste baile de mascarados,
não há mascaras,
só mentiras."

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