domingo, 2 de novembro de 2014

Lembre-se... - Parte I

- Oi... Bom dia linda...Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas. - Eu disse isso sorrindo ainda com os olhos fechados, mas eu sabia que ela estava acordada, pois ela tem um jeito único de se mexer.
- Bom dia bobo. - Um beijo sobre os meus lábios, uma mão em meu peito e um cheiro no pescoço. Poderia acordar todos os dias de minha vida assim, nessa rotina que ninguém quer, nesse marasmo que músicas repreendem, mas eu sou eu...
Deixei a preguiçosa na cama, ela precisa de mais tempo do que eu para depois de desperta tomar a iniciativa de sair da cama. Era sábado, deixei-a dormir o quanto desejasse. Fui-me para a cozinha e me pus a lhe fazer o café da manhã. Eu sei que ela gosta de comer sucrilhos, frutas e de conversar sobre o que vai fazer no dia que se segue, então enchi uma vasilha com o cereal, escolhi os maiores morangos e coloquei uma música baixa para limpar a minha mente. Eu tinha de estar com a cabeça sem os meus problemas, esta manhã era dela.
Eu a vi entrando na cozinha e destruindo a parte romântica onde eu levaria o café na cama, morderia seu artelho e lhe daria a bandeja com o desjejum. Contudo, eu sou um cara adaptável, capaz de simular uma dança durante uma queda. Coloquei a bandeja sobre a mesa, puxei a cadeira para que se sentasse e lhe mordi a bochecha.
- Ai! - E um tapa fraco veio de encontro ao meu braço.
Ela falou por vinte minutos e não a vi respirar nenhuma vez. Eu acho que quando se nada você tem de subir as vezes e tomar um ar, mas ela poderia ser uma sereia, nunca subir para sorver as moléculas de oxigênio. Ela era como uma planta dona da própria seiva da vida, fazia seu próprio ar. É a melhor desculpa que eu tenho para esse feito.
Eu ri quando achava engraçado alguma coisa e ela sempre me perguntava do que eu havia rido, meu humor sempre foi diferente, eu sempre preferi rir da chuva, das poças de água e do vento balançando o cabelo dela. Eu concordava com o que achava certo e dizia um "Aia!" quando julgava alguma ação ou pensamento errado.

Então eu acordei de verdade. Dormi em um colchão sem lençol, usando trapos por cobertor, coloquei o pé no chão e chutei um frasco de cerveja longneck... Engraçado que eu, Vinicius e Ela tínhamos algo em comum. Eu e o Vini gostamos dos pescoços longos e ambos achamos que Ela tem o mais bonito de todos, O Vini me disse esses dias quando me deixou em casa ao som de seu "Samba da Benção". Ela e o Vini tem em comum amar cada amante como se fosse o último. Eu e Ela tínhamos cada um uma fatalidade que mudou nossas vidas.
Fui ao banheiro que mais parecia de posto de gasolina de estrada e tomei um banho frio, acho que queimou a resistência tem umas semanas. Demorei uns dez minutos para achar um sabonete em meio a tantos produtos capilares e de corpo.Tive de cheirar a camiseta que estava sobre a mesa da cozinha... Ainda dava para usar. Coloquei um maço de cigarros no bolso e sai de casa. Devia ser perto do meio-dia, pois meus olhos doeram quando a claridade decidiu que o dia não era pra mim.
Cheguei na padaria/ restaurante e me sentei na área de fumantes. A garçonete com cara de puritana me ofereceu o cardápio, eu o coloquei de lado e pedi uma Heineken e um cinzeiro.
- Por que você fuma? - A garçonete era abusada, não gosto de abusados.
- Por que eu bebo quando tenho dinheiro, fumo quando tenho vontade e fodo quando uma mulher quer dar pra mim. Fumo mais do que bebo ou fodo. - Respondi em tom de seriedade.
Ela pendurou a bolsa pela alça no encosto da cadeira. Setou-se como quem esta de saída e me disse em um tom de voz como se não tivéssemos dividido uma vida:
- Eu só quero minhas coisas.
- Eu só quero você e pelo que vejo nenhum de nós vai ter o que quer.
- Como assim? O que você fez com as minhas roupas e coisas?
- Eu não sei, não arrumo a casa desde que você se foi, as vezes eu não acho as minhas coisas. Você ainda tem as chaves de casa?
- Tenho.
- Então você sabe onde as encontrar melhor que eu.
Ela se levantou e foi embora. A garçonete chegou com a breja, jogou um disco de papelão sobre a mesa e colocou a garrafa sobre ele.
- Ela me parece bem brava. - Disse a abusada.
- É. Ontem eu pedi pra abrir a porta de trás, ela não gostou da ideia.
- Quem está atrás dessa fumaça de cigarros?
- Um rabugento dona. Um rabugento.
Saindo da padoca eu vi a garçonete com metade de seu corpo dentro do carro, as pernas para fora e uma delas suspensa, ela pegava algo ali dentro. Vi o adesivo de uma faculdade na parte de trás do carro e sorri. Estava escrito o nome da Facu e embaixo: "Psicologia", estava explicado de onde vinha o lado abusado dela. Esse povo gosta de se meter na vida dos outros, são dessa geração saúde e nova era, seja la que bosta isso signifique, mas é possível reconhece-los pelos papos de motivação e vocabulário incomum, usam palavras como: postar, selfie, veganos e tratam animais como se fosse gente. O que é engraçado, pois só conheço gente que se trata como animal, mesmo quando olho no espelho.
- Ei. - A garçonete gritou quado me viu atravessando a rua. - Ei. Você precisa de ajuda?
- Só se você for como a Mãe Maria.
- Quem?
- Aquela que trás seu amor de volta em três dias.
- Não, não sou. - Ela disse em meio a risos. - Mas eu posso te ajudar, sou psicologa.
- Psicologia não é ciência. - Ergui o braço em um adeus e segui para o ponto de ônibus.

Cheguei em casa e Ela estava arrumando duas malas grandes. Ela me olhou e fez careta. Ela odeio quando fumo. Acendi um cigarro.
- Seu hálito fica um lixo quando fuma.
- Meu pau não fuma.
- Você nem toma mais banho. Deve ta pobre esse negocio.
- Eu não uso mais mesmo, exceto pra mijar e feder.
- Você é nojento.
- Eu era um poeta.
- Eu não vivo de palavras bonitas e você só usa verso branco.
- Vivia antes. Antes de achar que um guardanapo bonito é mais importante que velas na janta.
- Jantávamos a luz de velas comendo macarrão instantâneo por que não tínhamos dinheiro para pagar as contas todas!
- Tínhamos uma vida cheia de sazon.
- Cala a boca. Peguei minhas roupas e minhas coisas que estavam no banheiro. Deixei a chave sobre a mesa. Adeus.

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