Victor - No dia do caçador é
sempre a caça;
Vadim - No dia das mães é sempre
o pai;
Medeia - No dia dos pais, ela
sempre manda no caçador;
Jandela - No dia das bruxas ela
pinta o cabelo;
Beatriz - No dia dos namorados ela
sempre chora;
Guilherme - No dia do orgulho nerd carrega uma toalha;
Haroldo - No dia do músico não
sabe que o é;
Fábio - No dia de ano novo só
usa escadas.
Sinopse
Todas as mulheres da vida de
Victor refletem sobre a vida, sobre beleza e deixam uma nota de
rodapé sobre o que pensam do Moae. Victor tenta conversar com
Beatriz, mas a mulher esta buscando suas próprias conversas com
outro homem. Jandela tem problemas com o namorado. Haroldo de boa.
Fábio descobre que seu lado feminino é lésbica!
Ato 2 - Mulher ao Espelho
Cena 1 - Espelho, espelho meu...
Eu não costumo ter sonhos. Acordo
sem peso na consciência, sem nada influenciando o meu humor. Pelo
menos até verificar se está uma manhã quente ou fria ao colocar
meu pé esquerdo no chão. Se você for do tipo que prefere acordar
com o pé direito não vai entender que se acordo com o pé esquerdo
é por que não espero nada do dia que se segue, e como levanto com o
pé esquerdo o que acontecer de bom depois disso é lucro. Ao notar
se o dia que se segue está quente ou frio eu penso se vou usar uma
camisa de flanela ou se vou usar uma camiseta. Depois me dirijo ao
banho. Levanto-me como um zumbi, o pé esquerdo que toca o chão mal
agüenta o meu peso. Então, eu arisco uma queda, mas o pé direito
se desloca ao encontro do chão e me ampara. O corpo faz um gingado
de estrangeiro dançando samba, eu com certeza nasci doente do pé,
pois não posso ser ruim da cabeça... sou um gênio. As mãos buscam
a parede e de repente um gemido “Ah!”. Pronto, estou de pé. Um
passo atrás do outro, quase um silogismo do agregado de Machado, e
eu chego ao banheiro. Tiro a roupa como Jim Carrey no filme “Todo
Poderoso”. Mão direita na torneira do chuveiro e:
Victor
(canta): Tchau
preguiça/ Tchau sujeira/ Adeus cheirinho de suor/ Oh.../ Lava lava
lava/ Lava lava lava/ Uma orelha uma orelha/ Outra orelha outra
orelha(...)
Passo a mão no espelho do
banheiro pra retirar o embaçado dele. Olho nos meus olhos.
Victor: Espelho, espelho meu,
existe alguém mais preguiçoso do que eu?
Victor (reflexo): Nem nos cantos
mais longínquos desta terra. Ou no reino que criaste dentro de tua
cabeça há, ou haverá, outro preguiçoso como tu.
Victor: Sinceridade é uma merda
mesmo.
Victor (reflexo): “Nem todos os
caminhos são para todos os caminhantes”, nos disse Goethe. E a
verdade é o caminho mais doloroso de todos.
Victor: Olha! No seu pé!
Eu uso o braço esticado e o dedo
indicador em riste e aponto para onde deveria estar o pé de meu
reflexo. Minha interpretação de assustado deve convencê-lo.
Victor (reflexo): O que tem no meu
pé?
Esse truque nunca falha. O Reflexo
olha para os seus pés e eu dou-lhe um soco no queixo. Ele me olha
torto com a boca aberta e a cabeça balançando. Ponho o dedo
indicador em sua testa e o empurro. Ele nunca foi páreo para mim.
O grito do meu pai vem potente da
cozinha. O antigo regente da Casca de Noz, Vadim, grita a plenos
pulmões:
Vadim: Muleque ce vai ficar ai a
manhã toda?
Victor: Estou saindo.
Vadim: Ta achando que somos sócios
da Eletropaulo?
Victor: Estou saindo!
Não costumo fazer o desjejum.
Detona o mesmo estômago comer de manhã, e se o faço, realmente,
viro um rei com um trono. Contudo, meu pai sempre toma o café dele
com bolachas de água e sal. Eu saio do banheiro com a toalha
enrolada na cintura, levo um pescotapa - fusão de tapa com pescoço
- e passo pela cozinha com uma maior aceleração.
Victor: Afe! É domingo pra que
tanta pressa?
Vadim: Hoje tem o churrasco de dia
das mães.
Meu corpo treme. A palavra “mãe”
me assombra desde que me reconheço no mundo (em verdade, em Noz não
há mães, eu não o permito. Sábio Ironhide “Pais são muito
chatos”, ainda mais quando se tem 20 e poucos anos. Quando tiver 20
e muitos anos, eles já não se importam mais se você é quem é...
não há muito o que fazer).
Victor: Minha mãe vai vir? -
Gritei da sala a caminho pro quarto.
Vadim: Não. Vamos fazer um
churrasco do dia das mães sem sua mãe.
Victor: Ufa! Você quase me pegou
nessa, achei que ela vinha.
Vadim: Muleque besta. Vai se
arrumar.
Arrumar-me com o que? Ainda não
comprei minha cota de malha, minha Marck IV, colete de kevlar, espada
vorpal... ainda não tinha nada! Decidi que como Otelo me ornaria de
“Minhas qualidades, meu título e minha alma perfeita vão saber
como me defender do modo mais correto”. Certo, mais títulos auto
impostos do que qualidades, e nem tanto títulos assim.
Cena 2 - A Mãe do Rômulo, Remo e
de Victor
Perto da hora do almoço a buzina
do carro tocou. Meu coração foi a boca. Eu sabia o que viria
dali... Minha mãe, a antiga regente da Casca de Noz, a mulher que
dava maçãs envenenadas à Brancas-de-Neve, que media as crianças
que ia comer a partir do dedo indicador. Ela mantinha uma casa de
doces só para atraí-los. Eu aprendi a não gostar de doces.
Os passos firmes e calculados. Eu
aposto que ela pisa forte e ritmado de propósito. De repente um “Oi”
e meu pai responde com a mesma saudação. Eles foram casados por 20
anos, separaram-se e cada um foi morar em um lugar, foi quando decidi
sair de casa também, a final todo mundo tinha saído, não podia
ficar fora dessa. Umas risadas empolgadas vinham da sala. E eu sem
minha Mark IV. De repente a voz:
Medeia: Filho, venha me dizer um
oi e me desejar um feliz dia das mães!
Victor: Estou indo mãe!
Claro. Um feliz dia das mães para
você e um triste dia de filho pra mim. Minha mãe me obrigava a lhe
desejar felicidades, como se a minha fosse ser sugada e transferida
para ela.
Saio do quarto e a vejo sentada no
sofá. O traidor do meu pai ali sentado ao lado dela de mãos dadas.
Eu me desloco até ela, curvo-me para beijá-la no rosto e abraçá-la.
Victor: Feliz dia das mães, mãe.
Medeia: Cadê o meu presente?
Victor: Este sou eu mãe. O melhor
presente que Deus te deu.
Medeia: Claro que sim, filho...
Cadê seus amigos, faz muito tempo que eu não vejo eles.
Victor: Não os vejo.
Medeia: Você não os vê?
Victor: “Cadê seus amigos, a
muito que eu não os vejo”. Você não pode usar um proVadim
pessoal do caso reto como um objeto de oração.
Medeia: Claro que não, filho.
Cadê os seus amigos?
Victor: Devem vir mais tarde.
Medeia: Claro que sim, filho.
Eu ainda acho que ela sempre diz:
“Claro que alguma coisa, FILHO” para se lembrar que eu o sou.
Medeia: O que você anda fazendo
da vida?
Victor: Trabalhando. Sou operador
de caixa em uma padaria.
Medeia: Hum. E não esta
estudando?
Victor: Faço cursinho a noite.
Vadim: Parece um desperdício de
dinheiro, mas eu acabo ajudando o moleque quando ele precisa de uma
grana a mais.
Desperdício! Como se eu não
fosse um gênio! Ainda hemos de nos acertar Velhinho. Afinal eu estou
no futuro escrevendo isso e eu sei o que nos espera.
Victor: Claro que sim, pai.
Ele me olha de soslaio, mas
entende a ironia, afinal, ele é meu pai. Depois de mais meia hora de
conversa ficou decidido que meu pai iria acender a churrasqueira,
minha mãe preparar a salada de maionese e eu ver televisão. A fêmea
que alimentou os irmãos Rômulo e Remo foi uma loba, e vivos eles
idealizaram o arcabouço de Roma. A que me alimentou foi uma mulher,
e vivo eu idealizei O Reino de Noz. Sinceramente, acho que me
encontro em desvantagem, mas tudo bem, pois escrevo este texto com os
olhos de cinco anos no futuro e sei que nem tudo será como parece
que vai ser. Eu também terei do que me orgulhar, não como Rômulo
que matou o irmão, nem como Remo que morreu, mas hei de me orgulhar.
Passada mais uma hora a campainha
tocou e eu fui ver quem era. Ao ver uma moça e Beatriz no portão
desejei ser Remo.
Cena 3 – Megera Indomada
Beatriz... Beatriz... Beatriz...
Não sei como o nome dela me
soava tão mágico, tornava o mundo tão perfeito, a grama mais
verde, as pessoas mais felizes, ou menos atrozes. Eu não tinha
notado Jandela até que ela me acertou um soco no braço.
Jandela: Também estou aqui
panaca.
Victor: A dor logo me disse que
tinha vindo contigo.
Beatriz: Oi.
Victor: Oi.
Jandela: Vem Bia, a mãe dele você
tem de conhecer.
Claro, por que não jogar a mulher
que eu amava com Davi na cova. Jandela teria de rezar muito para
compensar essa. E Beatriz com suas covinhas nas bochechas teria de
agradar minha mãe... ela nem sabe onde se meteu. Jandela a puxou
pela mão e a guiou pela sala até o Hades.
Jandela: Oi Dona Medeia! Trouxe
sua nora.
Medeia: Minha o que?
Ela a olhou de cima a baixo.
Sorriu. E voltou a falar:
Medeia: Nossa! Mas ela é muito
bonita para o Vi.
Sério,
se você ainda achar que matricídio
é crime, por favor, retome o texto acima.
Beatriz: Eu e o Victor não
namoramos, somos só amigos.
Jandela com um sorriso
maquiavélico, disse:
Jandela: Claro, são só amigos.
Victor! Sua namorada tem vergonha de você?
Victor: Eu tenho vergonha de mim.
E ela não é minha namorada!
Medeia: Sentem-se meninas, daqui a
pouco vamos conversar mais.
Ambas: Obrigada Dona Medeia.
Minha mãe se levantou e foi a cozinha e Jandela e Beatriz se sentaram, cada uma de um lado meu, no sofá.
Minha mãe se levantou e foi a cozinha e Jandela e Beatriz se sentaram, cada uma de um lado meu, no sofá.
Victor: Onde está o seu namorado
Jandela?
Jandela: Não faço ideia de aonde
ele foi...
Jandela e Beatriz se acomodaram no
sofá e eu fiquei muito sem graça. Estava assistindo um desses
programas de domingo com auditório e um gordo a comandar o
espetáculo de horrores. Engraçado como as pessoas gostavam de
gritar um nome de guerra em rede nacional e se fraturar pelo
“entretenimento geral da nação”. Apesar de tudo eu ria, Beatriz
gargalhava e Jandela olhava com compaixão para a televisão. Ela
nunca gostou de cultura de massas e tinha dó dos pobres espíritos
se difamando por dinheiro.
Victor: O que aconteceu com você
e o seu namorado?
Jandela: Se eu quisesse falar de
eu e ele teria ido resolver com ele.
Beatriz: Nossa! Um a zero para
Jandela.
Victor: Está me ajudando muito
mulher!
Minha mãe chegou a sala com um
pano de prato entre as mãos, secando ambas. Jogou o pano em mim e me
mandou devolvê-lo a cozinha, um truque sujo para pegar o meu lugar
no sofá.
Medeia: Filho leve isso para a
cozinha para a sua mãe. E traga um refrigerante para sua amiga e
minha nora.
Jandela riu e Beatriz sorriu. Eu
queria a minha espada vorpal agora!
Victor: Claro.
Levantei e passei pela
churrasqueira antes de entrar na cozinha. Meu pai estava muito
entretido com sua cerveja – uma pilsen de produção massificada -,
as carnes assando e conversando com Guilherme.
Victor: Ué, você não disse que não vinha hoje? E não tem o culto mais tarde?
Guilherme: Quero pegar um livro
com você. O culto é a noite.
Victor: Entra lá na sala então.
Jandela, Beatriz e minha mãe estão lá.
Guilherme: Sua mãe! Nossa que
legal, ela é muito legal.
Pode levá-la para a sua casa meu
amigo. Mas não a alimente depois da meia-noite, nem a molhe. Você
não vai gostar do resultado.
Guilherme: Vou lá daqui a pouco,
só vou terminar de conversar com o seu pai.
Victor: Beleza.
Passei a porta da cozinha e
coloquei o pano no suporte. Preenchi os copos de refrigerante e me
dirige para a sala.
Minha mãe estava no centro do
sofá com as meninas dos lados e Guilherme estava atrás do sofá.
Eles riam e gracejavam quando eu cheguei. Depois um silêncio
mórbido. Entreguei os copos as meninas, Guilherme me olhou como se
eu o tivesse esfaqueado, minha mãe baixou os olhos e sacudiu a
cabeça, as meninas me olhavam com frustração.
Guilherme: Cara, cadê o meu copo?
Medeia: Victor nunca teve bons
modos.
Jandela: É um besta.
Beatriz: Coitado do Guilherme.
Aaaaaaaaahhhhhhhhh! Alguém me
mate, eu suplico.
Cena 4 – A arte do encontro
Quando todos se sentaram para
conversar em circulo no quintal de minha casa, Haroldo e Fábio já
haviam chegado. Meus pais tinham partido, mas a sombra de minha mãe
ainda pairava sobre nós.
Jandela: A mãe dele gostou de
você.
Beatriz: Eu gostei dela também.
Ela é muito legal, “sem travas na língua”, mas muito legal.
Victor: “Sem travas na língua”
que dragão teria travas por onde sopra fogo?
Guilherme: Sempre um exagerado.
Haroldo: Oh! Velho, a Dona Medeia
é mou gente boa.
Fábio: Eu gosto da sua mãe, ela
nunca é chata comigo.
Victor: Bando de loucos!
Fábio: Cara sua mãe é mou legal
ela conversa de boa com todo mundo. E o que ela disse sobre a vida
foi muito legal.
Momentos antes Guilherme perguntou
o que minha mãe achava que é era a vida, o fato dela trabalhar com
moribundos deve tê-lo instigado a tanto. Depois todo mundo decidiu
que era uma boa oportunidade para falar também.
Guilherme: O que a senhora acha
que é a vida, Dona Medeia?
Medeia: A vida é um momento de
êxtase antes da morte. Tudo o que você acha que deve fazer faça. A
maioria das pessoas não conseguem fazer o que querem, e as que eu
trabalho sequer tem chance de tentar.
Fábio: A senhora trampa onde?
Medeia: No hospital do câncer.
Beatriz: Deve ser bem triste lá.
Medeia: É sim, mas trabalhar lá
te dá uma outra noção da vida. Você sente que deve viver mais do
que acha que deve. Você devia namorar o Victor e curtir a vida logo,
sem indecisões, sem hesitar.
Beatriz: (Risos)
Victor: Mãe!
Guilherme: Eu acho que a vida deve
ser comedida. Deve ser vivida de acordo com a bíblia.
Fábio: Claro que Deus é
importante, mas viver também é. Você nunca sabe quando vai
acordar...
Jandela: depois de cada noite de
sono.
Fábio: … então você tem de
fazer o que gosta. Com responsabilidade e sem ser cruel.
Jandela: Eu acho que a vida é pra
ser vivida, sem peso na consciência.
Beatriz: Eu sou católica e creio
que Deus traça um plano pra cada um, e acabamos por viver dessa
forma.
Hoje eu riria da Beatriz.
Vadim: A vida é um presente de
Deus, ele dá e ele toma. Cumpra os dez mandamentos e você vai levar
uma vida reta e digna.
Victor: “A vida é a arte do
encontro”, só isso. Um encontro de doidos iguais a vocês.
Todos riem. Menos eu, “a vida é
a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida”. Vini
é o cara, sempre. O encontro de minha mãe com meu pai me fez. O
encontro de Jandela com a Beatriz a trouxe para minha vida. Os
encontros de RPG nas sextas a noite mantém meus amigos por perto. O
encontro de você leitor com este texto te deixa mais perto de mim. A
vida é o encontro de gametas... não se engane com os vírus que só
querem te zoar. Fingem que estão vivos com uma tira de RNA ou DNA só
pra curtir com a cara dos outros.
Cena 5 – Mulheres, Espelhos, Rei
Mãe
Medeia estava no carro com Vadim
ao lado dirigindo. Falavam sobre o filho morar sozinho com o emprego
que tinha, uma conversa chata para Medeia. Então ela abaixou o
quebra-sol e se olhou no espelho. O filho era seu, foi criado para
ser forte não para chorar quando um problema qualquer surgisse. Ele
que estudasse para melhorar de vida, claro que iria ajudá-lo quando
fosse necessário, mas quando ela achasse necessário, não quando
ele viesse quebrado e queixoso. Victor era o seu filho, o único
depois da fatalidade. Ele tinha de ser forte, ele ainda sorria como
criança, mas logo as dores da vida viriam atrás dele. Apesar de
estar um menino verde e sonhador ele tinha de aguentar o tranco.
Ela sabia que era verdade, em um
curto período de tempo eu teria minha prova de fogo, mas eu não
daria conta dela. Eu tive muitas dores até ali, sozinho teria
ensandecido. Encontrava-me de corpo fatigado, mente entorpecida e
espírito esmorecido, mas quem têm amigos nunca está só. É
verdade, eu sou forte fui feito com outra matéria, forjado em outras
chamas, temperado na solidão do metro.
Eu ainda estou de pé.
Amiga
Jandela estava no banheiro de
minha casa. O espelho do banheiro estava aberto e ela buscava um fio
dental, dos de passar entre os dentes mesmo. Encontrou-o e quando
fechou a porta do armário viu seu rosto no espelho. Victor era seu
amigo desde o colégio outrora era apaixonada por ele, mas ele era
moleque demais para se interessar por mulheres. Ele ficava com umas
amigas suas, mais algumas meninas de outras salas e séries, mas
nunca havia lhe dado atenção. Então veio a fatalidade, o menino
contente caiu no chão e não conseguia se levantar. No dia seguinte
a fatalidade ele estava na escola, de rosto branco como a camiseta da
escola, os olhos baixos e sem um sorriso no rosto. Um a um os amigos
de sala vieram a ele e o abraçaram. Jandela havia sido a terceira a
abraçá-lo, mas tornou-se sua melhor amiga depois disso. Os dias
passavam devagar para Victor, ela notava isso claramente. Contudo,
ele se tornou mais inteligente, suas notas melhoraram, o cursinho a
noite e a escola de manhã o desgastava, mas era bom para a mente.
Amor
Beatriz se arrumava na cadeira sob
o sol das duas horas da tarde. Ao notar que era um sol forte puxou o
celular e se viu no metal polido. Victor é um bom rapaz,
inteligente, bonito e engraçado. Além de tudo tem amigos muito
legais e ela não entendia como ele podia ser tão rabugento e ter
tantos amigos. Bia, como todos a chamavam, menos eu, e isso explica
por que só Beatriz aparece no texto, estava no dia em que a
fatalidade ocorreu. Ela viu os amigos se abraçarem e fazerem um
grande circulo em meio ao refeitório. Ela o viu ser jogado até a
altura do teto da sala de aula pelos meninos quando fez aniversário.
Viu Victor beijar as meninas da escola sem dar atenção a nenhuma,
pois na hora de ir embora era a ela que ele vinha. Abandonava todas
para ter a sua companhia. Foi a ela que ele jurou amor eterno, ela se
lembra da vez em que o menino lhe disse que a alma dele a pertencia.
Ela se engraçou, rodou em volta dele, deu-lhe um beijo suave nos
lábios e se retirou. Mas, a lembrança mais forte foi no dia da
festa junina, quando ele veio até ela, ajoelhou-se e a pediu em
casamento. Ela negou, mas seu coração desatinou, e suas faces
ruborizaram. Victor era o homem que queria amar, mas não conseguia,
queria-o para sempre ao seu lado, como o amigo que era.
Amigo
Fábio
olhava para a bandeja onde estivera a carne assada. Seu reflexo o
deixou atônito e pensou em Victor. Por que ele tinha de comprar
pouca picanha. Pelo menos tinha refrigerante de sobra. A salada de
maionese da mãe dele era incrível, sem maçã para estragar o sabor
das batatas... ah, as batatas, cozidas em fogo lento até a casca
sair sozinha. Ele tinha visto a mãe de Victor fazê-las mais de uma
vez. Ainda pensou que se fosse mulher teria aprendido a cozinhar
cedo, pois sua mãe ensinou sua irmã a cozinhar cedo. Pensou ainda
que se fosse mulher poderia entrar no banheiro feminino e ver as
mulheres nuas, suas curvas, pensou em beijá-las e chegou a uma
conclusão: se mulher seria lésbica.
Depois
pensou no vídeo game, no que iria jogar hoje quando chegasse em
casa, tinha de terminar o Final
Fantasy Tactics
antes
de Guilherme, só para se mostrar ao metido “sabe tudo”. Depois
pensou que faltava assar as asas de frango “Bem que o Victor podia
fazer uma pra ser lembrado”.
Cena 6 – O Moae através do
Espelho e O Que Ele Encontrou por Lá
A noite todos já haviam partido e
eu me colocava de novo para visitar um certo reino dentro da minha
cabeça. Estava sentado no degrau da porta da sala olhando para o
quintal. Não havia muito o que pensar... Encontrava-me satisfeito
com o dia. Vi meu velho e minha mãe se dando bem, vi meus amigos e
vi a Senhora Dos Olhos Bravos.
Todas as janelas tem vidro, pelo
menos as que vendem para casas, e sempre que fecho meus olhos penso
no que já li por aí: “Os olhos são as janelas da alma”. Creio
que o significado seja algo como através dos olhos se pode ver a
alma de uma pessoa, pode-se ver quem ela realmente é, claro que o
Seraph do Matrix iria discordar, pois prefere lutar com alguém para
conhecê-lo verdadeiramente, mas eu não sou conhecido por destruir
tijolos com as mãos, ou golpear com Dim Mak.
E
eu sempre acreditei que se fecho os meus olhos isso funciona como uma
janela mesmo, fechando as folhas que impedem a luz de entrar em casa
e com a luz do quarto acesa o vidro vira um espelho e assim eu posso
olhar pra dentro de mim mesmo. Quando iria começar a construir o
arcabouço de uma ideia para trabalhá-la meu Velho voltou e gritou:
Vadim: Ow!!! Pensador vai ficar ai
ou vai me ajuda a descarregar as compras do carro?
Victor: Não me lembro de Rodin
descarregar compras.
Vadim: Tá. Agora tira essa bunda
daí e venha me ajudar.
Victor: (Risadas) Claro pai.
Levantei e fui em direção ao
carro ao me emparelhar ao velhinho ele diz:
Vadim: Foi bom o dia de hoje?
Victor: Foi sim... porquê está
me perguntando isso?
Vadim: Cê só fica com cara de
pensador quando tenta moderar sua alegria.
Incrível como eu perdi essa habilidade única de ser feliz e ainda mais a habilidade de conter a alegria. Eu ainda não sabia muita coisa da vida, não que eu saiba agora, mas descobri que felicidade é a subida da montanha russa antes da queda. E aqui vai um conselho: “Não importa se você está subindo ou descendo a montanha russa. Faça isso gritando.”
Incrível como eu perdi essa habilidade única de ser feliz e ainda mais a habilidade de conter a alegria. Eu ainda não sabia muita coisa da vida, não que eu saiba agora, mas descobri que felicidade é a subida da montanha russa antes da queda. E aqui vai um conselho: “Não importa se você está subindo ou descendo a montanha russa. Faça isso gritando.”
Victor: Sério?
Vadim: Sério.
Deixei de pensar por um momento e
tenho certeza que esse era o momento que eu descobriria a equação
da anti-vida, somente por que deixei o momento me levar, meu velho
passou por mim também. Impressionante como todo mundo acaba por
conhecer uma parte sua que você não conhecia e as pessoas agem com
você do modo que elas te conhecem. Para o meu pai eu sempre serei um
menino preguiçoso. Para minha mãe eu sempre serei um menino
“nascido no verão”. Para Jandela eu sempre serei o que prefere
perder do que fazer algo que me disseram pra ganhar. Para meus amigos
eu sempre serei um perdido sonhador. Para Beatriz eu sempre serei seu
amigo
Para mim mesmo eu sempre serei
essa metamorfose ambulante.
“Eu
não conheci o outro mundo por querer”
Próximo
Capitulo:
S01E03
- Pronominais
Os vícios de linguagem de Victor e sua mania de corrigir o português
dos outros causam uma comoção no Reino de Noz. Seu castelo é
sitiado e guerras eclodem, mas perguntas ficam no ar, afinal por que
tiramos o “i” do queijo e o colocamos no arroz o transformando em
“arroiz”, e de onde vem o “n” do muito (“muinto”). È
“noís”.
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