domingo, 13 de maio de 2012

S01E01 - O Rei da Casca de Noz


Personagens (em ordem de aparição)

Victor – O rei da casca de noz.
Fábio – A torre da casca de noz.
Guilherme – O bispo da casca de noz.
Haroldo – O cavalo da casca de noz.
Jandela – A rainha da casca de noz.
Beatriz – A senhora da casca de noz (mas ainda é uma mulher...).

Sinopse

A história tem inicio com uma aventura de RPG. Depois uma conversa na mesa de jogo revela os ideais e perspectivas dos personagens. Neste conhecemos Victor, Guilherme, Fábio e Haroldo, além da paixão de Victor, Beatriz; e sua melhor amiga, Jandela



Ato 1 - O Rei da Casca de Noz!

Cena 1 – O Solitário de São Paulo
(Em um ônibus lotado de pessoas.)

Oh Deus, eu poderia viver recluso numa casca de noz e me achar o rei do espaço infinito...”

Sozinho no ônibus eu leio Hamlet. Dizer sozinho é relativo, pois está sempre lotado o meio de transporte público. É como ser “o Solitário de Mariana”; viver com a esposa e quinze filhos e ainda estar só, ou no meu caso estar em um ônibus com setenta pessoas e ainda estar só. Na segunda cena do segundo ato meus olhos leem a frase acima. Ela se fixaria em meu cérebro como um chiclete nos vãos do tênis. Sempre que penso nela vem a minha mente um reino dentro de uma casca de noz, afinal eu não posso imaginar todo o universo. Eu fecho o livro, olho para fora do ônibus e começo a pensar na vida, pois pensar é o que eu faço de melhor... Sou míope e, portanto, doente dos olhos.
Talvez você que esteja lendo isso ache que é uma história de ficção. Você está certo, mas a arte imita a vida e não o contrário, então eu conto essas estórias com o arcabouço da minha vida. Isso são palavras jogadas no papel, e tomara que você leia da esquerda pra direita e de cima para baixo, respeite as virgulas (elas são importantes), preste atenção aos sinais e às onomatopéias, as onomásticas. Se você seguir minhas migalhas eu te levo até a casa de doces, e depois de comer uma bala vai ver o mundo como eu vejo. Aperte o cinto, segure o chapéu, amarre o cadarço (não quero você caindo pelo meu reino, creia-me você não quer se perder aqui) e encha o seu odre de vinho... você vai precisar.
Esse canto dos dias modernos começa com a história de duas pessoas, meu pai e minha mãe, mas como a história é sobre o rei da casca de noz e não sobre os antigos regentes vou me limitar a começar comigo já adulto, acho que ninguém quer saber sobre copulação e fraldas sujas. Bem, sobre cópula todo mundo quer saber, senão a internet seria muito sem graça.
Dizem por ai que a vida é bela, talvez pra quem leu Vinicius. É aquele cara que como um alquimista medieval escreveu uma receita de mulher, como se ainda acreditássemos na abiogênese. É uma ideia estranha, mas muito bonita, alias como tudo no Vini: muito belo, mas vazio. Ele via o mundo sentado no trono da boemia e regado a hidromel, e este que vos fala vivia uma vida diferente, bem diferente, onde o dia reinava e a coca-cola percorria-me as veias. Bom, como toda história que vai ter um final feliz eu começo a minha com um...

Cena 2 – Role Playing Game
(Sentados ao redor de uma mesa com seis cadeiras, mas uma livre. Quadros nas paredes com imagens de serras, montes e praias.)

...Era uma vez num castelo de paredes brancas uma princesa de alva tez e melena negra como numa noite ausente de estrelas. Ali repousada sobre almofadas vindas das longínquas terras do leste, ela pensava sobre seu amado, um homem diferente dos outros...
Fábio: Cara! Sério mesmo que cê vai começar assim a aventura?
Victor: Cala boca que quem está mestrando sou eu!
Guilherme: Afe! Dois meses de espera pra você começar falando de princesa.
Victor: Mas a aventura começa na cidade de Sie Ziune...
Fábio: Nada a ver. Pode começar com um combate pelo amor de Deus! Faz dois meses que não jogamos. Pode mandar essa princesa pra...
Haroldo: Ei! Ei! A princesa é irmã do Daoge. Você não pode xingar a irmã do meu personagem!
Victor: Assim não dá... Sou eu quem mestro, por que raios ninguém cala a boca!
Fábio: Por que você é só um chato! Hahuhauhuahuahuhahau
Guilherme: Se ninguém quer jogar podíamos pelo menos pedir as pizzas?
Vitor: Ah...
Isso acontecia toda sexta à noite na casa do Haroldo, mas não todas mais, depois que ele começou a ensaiar com a banda dele ficou mais difícil reunir o grupo de RPG. Contudo ainda fazíamos isso para ver a cara um do outro e falar mal das mulheres, mas sempre na pausa do banheiro ou da comida. Por falar nisso, tente mestrar e parar pra comer na hora de um combate, minha mãe virou uma puta por maioria de votos...
Victor: Hora do lanche...
Haroldo: É! To com fome! (Tínhamos a estranha mania de imitar pessoas e personagens. E sempre que a frase começava com “É!” seguido do verbo ser conjugado na terceira pessoa do presente imitávamos Joseph Climber)
Fábio: Mano! Eu vou ligar pra minha namorada. Eu disse que ia ligar antes de começarmos a jogar.
Haroldo: (Risos) Ta muito manso mano... Na coleira.
Guilherme: É, o Fábio não é mais o mesmo.
Fábio: E o Victor? Quando ele ficava com a doida dos olhos insanos e risada do mal lá... nem jogávamos, ele...
O silencio foi sepulcral. Meu termino com a Beatriz não foi dos melhores.
O que é incrível, pois nossas brigas eram de cinco minutos. Cinco minutos nervosos é verdade, havia gritos e xingamentos, mas toda a tempestade durava pouco e a bonança vinha rápida. O Fábio nem ligava mais para as brigas ele só ficava olhando no relógio e esperando a “Pax Beatrix”. O legal daquela época era vê-la terminar nossas discussões com um cruzar de dedos. O dedo médio se sobrepunha ao indicador numa declaração de superioridade e de claro entendimento: “Vou cruzar as pernas, nada de sexo pra você”. O que era incrível, pois não transávamos mesmo. Eu, como Hamlet, julgo-me razoavelmente virtuoso e de argumentos lúcidos, mas o cruzar de dedos era como uma parábola bíblica, mas com o devido analogismo: “Quem tem olhos para ver, veja”...
Uma buzina... e como os cães de Pavlov minha boca se enchia d’água e desse silogismo a conclusão era óbvia: Pizza! Eu sempre me sento na ponta da mesa, afinal sou eu quem mestro. Depois em sentido anti-horário sentam-se o Fábio, Guilherme, e o Haroldo, mas a pizza é consumida pelos mais fortes, Darwin realmente esta certo... Os mais adaptados, neste caso os rápidos e fortes, alimentam-se antes, têm maiores chances de sobreviver e de se reproduzir. Merda! Preciso de mais músculos... Fábio é o cara mais forte e rápido de nós o cara é tipo um Hulk no meio de zumbis, em termos de condições físicas ele é muito superior ao restante de nós. Quando éramos crianças nem mesmo nós três juntos dávamos conta de contê-lo. O Troll Albino nos empilhava e sentava em cima, um rei sobre seu trono.
Fábio: E a Beatriz, Moae? (Às vezes eu era chamado assim. Moae é uma raça de meio-dragões do mundo em que jogávamos)
Victor: Hum... O que tem ela?
Fábio: Nada, só quero saber como ela esta?
Victor: Bem, eu acho...
Guilherme: Você não está namorando? – E o olhar de Guilherme para Fábio era o que diz: “Eu sei o que você fez no verão passado”.
Fábio: Namorando? Nunca. Tem mulher demais nessa terra meu chapa.
Guilherme: Em verdade, no Brasil há 1,04 mulheres para cada homem.
Haroldo: Mas se a sua está livre então já tem mais uma sobrando pra mim.
Todos riem menos o Guilherme, mas ele nunca ri mesmo...
A campainha toca de novo, mas dessa vez não salivo, pois já estou comendo meu pedaço de pizza. Haroldo vai atender e volta com Jandela. A mesa esta cheia de livros e poliedros coloridos.
Jandela: Oi meninos!
Todos dizem oi.
Fábio: Oi Jandela, quanto tempo hein.
Jandela: Não o suficiente.
Guilherme: Tupish!
Haroldo e Victor riem
Jandela: Eita! Vocês ainda brincam disso?
Victor: Ei, ei, ei... “isso” é arte. Beleza!!!, Uma mistura de teatro, música e contos.
Jandela: Uh-hum. Bom pelo menos tem pizza.
Guilherme: Já se foi à sessão de RPG mesmo, comer parece a melhor opção.
Jandela: Encontrei a Bia, Victor. Ela tava no cursinho e tava muito bonita hoje.
Haroldo: Agora sim acabou a sessão, você acabou de invocar a depressão sobre o mestre.
Fábio: (Risos) Tipo um feitiço de Focus 10 em Humanos hein.
Victor: ...
Jandela: Quando você vai conversar com ela de novo?
Victor: Não sei. A última conversa não foi muito boa.
Em verdade essa conversa foi uma merda. Ela disse o que ouço desde que comecei a prestar atenção nas mulheres e querer ficar com elas, “Eu gosto de você, mas não posso ficar contigo. Eu queria te por numa garrafa e tê-lo sempre por perto”.
Fábio: Ela falou da garrafa?
Victor: Falou...
Haroldo: Nossa cara que merda... Sempre a garrafa...
Guilherme: Você também só arruma mulher doida. Você tinha que conhecer umas meninas da minha igreja, ou pelo menos uma menina sensata e cristã.
Victor: Mas eu sou ateu!
Guilherme: Ainda, jovem padawan... Mas eu tenho fé em você.
Haroldo: Ele ta louco... Fé no Victor, onde já se viu...
Jandela: E você Haroldo como anda a banda?
Haroldo: O de sempre, todo mundo quer tocar, mas ninguém quer ensaiar com regularidade.
Guilherme: O mal do homem é a disciplina.
Fábio: O mal do homem é a mulher. Eu aposto que há mulher na parada, algum dos seus amigos deve ta de rolo.
Jandela: Afe! Até parece que não há mulheres inteligentes e que consigam dividir o tempo do namorado com os amigos dele.
Victor: É vamos fingir que há mulheres assim.
Fábio e Haroldo riem. O celular de Jandela toca, a musica é “Meus bons amigos” do barão vermelho.
Jandela: Alô!
Beatriz: Oi! Tudo bem?
Jandela: Sim e você?
Beatriz: To bem. Onde você ta?
Jandela: Na casa do Haroldo com os meninos.
Beatriz: Ele ta ai?
Jandela: Sim.
Beatriz: Hum... Acho que vou dar uma passada ai então.
Jandela: Certeza?
Beatriz: Sim. Quero falar com ele.
Jandela: Ta bom então. Beijos.
Beatriz: Beijos.
Todos se olham na sala, mas ninguém diz nada. Haroldo faz o som do vento com a boca, Fábio lhe bate com as pontas dos dedos da mão na nuca. O estalo força algumas risadas, exceto de Guilherme, ele nunca ri. Eu mesmo me presto a esbouçar um sorriso com o canto da boca, mas sem mostrar os dentes. Eles têm de saber que eu não quero brincadeiras quando a Beatriz chegar.
Jandela: A Bia ta vindo.
Antes dela afirmar, o que ficou óbvio com o término da conversa ao celular, eu já sabia que ela viria.
Todos olham para Victor. Ele corre em direção à saída da sala, e os meninos vão atrás dele. Jandela senta, coloca refrigerante no copo e pega uma pizza.
Jandela: Homens...
Fábio: Você sabia que ele ia correr daqui não sabia?
Jandela: Sim, mas ele ia voltar.
Guilherme: “Mulher bonita é como um machado dotado de vida”.
Haroldo: Ia voltar, mas todo suado de correr por ai.
Eu me sento. Não é fácil olhar nos olhos daquela mulher, em minha cabeça eu a chamo de “Senhora dos Olhos Bravos”. Ela nunca desviou o olhar do meu, nunca... e isso me assustava pacas. A campainha tocou de novo. Meu coração bateu como a explosão de uma bomba gama e eu tremi. Fábio foi abrir o portão, e quando voltou me deu um sorriso e escondeu um sinal de joia da mulher atras dele com o corpo. Ela passou a porta, seu cabelo era comprido e castanho escuro, os lábios rosa do batom, os olhos – sempre eles – eram castanhos e incisivos, a pele branca e uma voz melodiosa.
Beatriz: Oi gente!
Todos a cumprimentam. Victor olha sua mão e vê um livro.
Victor: Está lendo o que?
Beatriz: Memorias Póstumas do Machado. É pro vestibular.
Fábio: Que bosta!
Guilherme: Olha o respeito. Machado é o expoente da literatura portuguesa.
Haroldo: É legalzinho...
Victor: Hereges.
Beatriz: E você anda lendo o que?
Jandela: Hamlet. Ta no Twitter dele. (Jandela é sempre capaz de se intrometer nas conversas alheias e sair delas como se nunca tivesse estado ali. Essa habilidade lhe permitia criticar quem quisesse e sair imune de uma discussão. Ainda acredito que era o uso preciso do tempo, como se ela medisse o intervalo entre uma pergunta e uma resposta e encontrasse ali uma brecha para uma oração inteira.)
Victor: “Há algo de podre na Dinamarca”
Guilherme sorri com o canto da boca, não é difícil imaginar que ele gostava do humor negro e do raciocínio incisivo de Shakespeare.
Beatriz: Victor! Podemos conversar? (Ah! Beatriz, ela sempre teve esse humor temperado em chamas do inferno. De sua boca podiam sair as mais belas palavras que um homem gostariam de ouvir ou verbetes laminados capazes de cortar um nerd, como eu, ao meio. Suas palavras me abecavam às vezes.)
Victor: Claro. Vamos lá fora.

Cena 3 – Sob o céu da terra da garoa
(Em um quintal fechado por paredes, mas de seu aberto. Com uma pequena horta e uma bola de futebol jogada ao relento.)

Saímos ambos para o quintal. A noite estava confortável, o calor do dia ainda estava armazenado no chão de concreto, nas paredes e se transferia para o ambiente. O vento soprava bem fraco, em verdade Zéfiro parecia estar do meu lado aquela noite, ele mal deformava os cachos castanhos escuros da melena dela. Não obstante, os olhos frios e cheios de uma coragem sem limite me fitou. Meu coração gelou e eu achei que tinha morrido e sido enterrado no Cocite. Sua boca abriu e temi pela minha vida num súbito ressuscitar. As palavras que saíram da boca dela foram...
Beatriz: Tudo bem com você? (Mas eu não esperava verbetes de preocupação)
Victor: Tudo. (Respondi meio perdido e como ainda era óbvio o que pensava, pois não sabia mentir naquela época, ela me perguntou com tom de voz preocupado)
Beatriz: Tudo? Mesmo?
Victor: Sim, sim. (E olhei para o céu poluído e sujo de São Paulo)
Beatriz: Você anda estranho depois que conversamos na semana passada.
Victor: Fiquei meio desconcertado. Fazia tempo que não ficava com alguém como você.
Beatriz: Como eu?
Victor: É. Uma mulher tão bonita e legal. (Eu havia dito isso de coração acreditam? Eu disse “essa mulher é legal”. Impressionante de minha parte e me virei para olhá-la de novo)
Beatriz: Obrigada, mas eu não sou tão bonita e nem tão legal assim...
Victor: É sim... - Respirei forte, ela deve ter ouvido meus pulmões se esvaziarem. Fitei-a de novo e gaguejei - Por que não estamos juntos? Ou namorando?
Beatriz: Porque eu gosto de outro cara. Você é muito legal e me fala coisas bonitas, mas eu gosto demais dele.
Nesse momento meus olhos se encheram d'água. A minha vista ficou como um aquário e eu ainda a via, mas toda marejada dos meus olhos. O céu se condoeu de mim e derramou as suas lagrimas também. Eu descobri que São Paulo é a terra da garoa por que o céu vê tristezas demais nessa cidade e chora, da mesma forma que o céu se esconde quando ao pai são servidos os filhos de refeição. E ser o céu de uma cidade inteira implica em ver muitas histórias tristes.
Victor: Hum. Eu entendo como é gostar demais de uma pessoa
Beatriz: Me desculpe. Eu não queria te magoar e realmente gostei de sair com você nesse tempo... Mas eu ainda gosto do Pedro.
Agora sim tudo ia de mal a melhor, pois o motivo de minha ira tinha um nome. Eu poderia colocar o sangue dele numa lâmina minha e abafar seus gritos com uma lamínula, só tinha se seguir o código Harry e não seria pego. Ou eu poderia aceitar os fatos...
Victor: Eu entendo. Então ficamos como amigos?
Beatriz: Sim. Eu adoraria ser sua amiga.
Victor: Tudo bem então. Bem vinda ao hospício amiga.

Cena 4 – Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
(Cozinha. Muitos pratos a mesa, caixas de pizza e refrigerantes. Sala com sofá grande, rack, televisão e muitos DVDs.)

Ao abrir a porta do quintal que dava acesso para a cozinha da casa e visão da sala pudemos ver todos sentados nos sofás, comendo e tomando seus refrigerantes. Passamos pela cozinha e chegamos à sala sem dizer uma palavra, e se não estou enganado nem o nosso andar sobre o piso fazia barulho. A conversa que se seguia era sobre decisões de adultos. Uma conversa que eu teria até ser marido e pai, ser velho e avô, morrer e me unir à Força.
Jandela: Mas isso não tem haver com pagar contas e sim com assumir os erros.
Fábio: Eu entendo o que você tá falando, mas não é só isso. Não basta assumir os erros e ser responsável com as contas. Saber se divertir também é parte de ser feliz.
Haroldo: Eu só acho que ser adulto é fazer tudo o que se quer sem causar mau aos outros.
Fábio: Viu. O Haroldo entende o que eu digo.
O Haroldo olhou para mim e para a Beatriz e deu de ombros. Eu ri baixo e Beatriz também. Eu a olhei no olhos e disse sorrindo:
Victor: “Ó vós que entrais, deixai a esperança”
Beatriz: Que?
Victor: Bem vinda ao show de horrores. (Risos)
Jandela: Cara, ser adulto é fazer o que tem de ser feito.
Fábio: Nada a ver, você não é um soldado, “fazer o que tem de ser feito”, fazemos o que dá pra fazer e se divertir é parte crucial disso.
Guilherme: Quando foi que ela disse que se divertir não esta incluso em ser adulto.
Fábio: Mas é claro que não esta. Se você só faz o que deve ser feito não sobra tempo pra você mesmo.
Guilherme: Ser adulto e ser feliz são a mesma coisa? Claro que não, mas podem ser harmonizadas.
Haroldo: Eu acho que é só aceitar a vida como ela é.
Beatriz: Eu acho que ser adulto é levar a vida a sério.
Naquele momento eu devia ter entendido que nunca iriamos ficar juntos para sempre. Levar a vida a sério nunca foi o meu ideal, mas sim passar pela vida sem muita porrada. Sou um homem de hábitos simples: gosto de comer, dormir e jogar RPG. Não consigo me imaginar com uma mulher que leva a vida a sério. Ela teria de dançar na chuva, brincar com crianças, rolar na grama, gritar nome de golpes em japonês. Tudo o que a Beatriz não faria comigo.
Beatriz: O que é ser adulto pra você Victor?
Victor: Um dia fui ao meu pai chorando e perguntei para ele quando os problemas da adolescência iam terminar. Ele me disse que nunca, que ser adulto era aprender a não chorar ou se desesperar quando algo ruim acontece. Ser adulto é levantar quando se cai, é seguir em frente quando pode-se voltar pra trás. É aguentar a consequência das escolhas que se faz.
Todos se olharam.
Fábio: Grande “Tio Bigode”.
Todos riem. Engraçado como meu pai era visto como um cara legal pelos meus amigos. É certo que ele sempre os tratou bem, nos buscava em shoppings quando éramos crianças e comprava sorvete. Minha mãe era mais reclusa e quando saía da toca eram os gritos que a denunciavam, os palavrões e as porradas.
Quando as risadas cessaram a televisão quebrou o silêncio.

Cena 5 – A sétima arte.

A cena ali era do filme G.I. Joe.
Beatriz: Nossa eu vi esse filme no cinema!
Jandela: Eu não sei que graça tem em filmes assim. Mortes, explosões e mais mortes.
Guilherme: Como assim você não vê graça em filmes assim! São muito bons. Vai me dizer que você não viu Batman, o Cavaleiro das trevas?
Jandela: Não vi, e não quero.
Todos os homens colocaram o dedo indicador no peito, começaram a tremer e deixaram-se cair ao chão.
Beatriz: Que que é isso?
Haroldo: Acabamos de apertar o botão de infarto. - virou-se para Jandela – Como assim não quer ver o Cavaleiro das Trevas?
Jandela: Parece bobo!
Guilherme: Tragam os forcados. Vamos matar essa bruxa.
Victor: Ela só precisa de uma educação melhor... Só isso.
Fábio: Calem-se vocês me deixam doido! Ta no fim o filme.
Victor: A pior parte de todas desse filme.
Haroldo: Por que?
A cena envolvia o chefão do mal apertar um botão para destruir o gelo acima da base subterrânea e destruí-la.
Victor: Eu só imagino se fosse real isso. O vilão pressiona o botão, o gelo do teto começa a explodir e... boiá! Gelo não afunda! Imagina a cara do vilão olhando pra cima e gritando 'Chame o engenheiro dessa merda'.
Todos riem.
Jandela: O filme já é ruim e você ainda o piora.
Guilherme: Esse merece ser zuado.
Fábio: (Risos) Ai sim!
Haroldo: Tá na hora de matar a fome! Ta na mesa pessoal!
Saímos da sala e fomos para a cozinha novante. Umas boas risadas e mais conversa jogada fora. Os cabelos vermelhos de Jandela refletiam sua disposição de conversar sobre filmes de super-heróis e desenhos japoneses, mas tudo bem, cedo ou tarde todo mundo muda...
Às três e pouco da manhã Beatriz se levantou da cadeira e disse que precisava ir embora. Haroldo se levantou também e todos o seguimos no ato.
Jandela: Você vai dormir na minha casa.
Beatriz: Tudo bem.

Cena 6 – Kiss your past and goodbye.

Do lado de fora da casa nos despedimos. Jandela e Beatriz desceram a rua, enquanto eu, Fábio e Guilherme a subíamos. Era um bairro calmo, senão eu teria as levado em casa. Subíamos a rua cantando um pouco de tudo, começamos com a primeira versão da abertura dos Cavaleiros do Zodiaco (Tem sempre alguém no cosmo...), passamos por My Way (do Frank) e terminamos com Larger than Life (Dos caras da rua de trás, fazer o que, essa musica fez parte de nossa infância também).
E assim, na noite de uma sexta-feira começava o meu sábado. Saí da toca do leão. Como sempre saio de lá de madrugada, por volta das quatro da manhã, vou andando até o terminal de ônibus acompanhado do Guilherme e do Fábio. No terminal nos despedimos e cada um pegou seu “Cata Louco”, segundo o Fábio, ônibus é só isso, um meio de ajuntar os loucos dos mais distantes locais e colocá-los todos juntos. Guilherme acha que a Terra é o hospício do universo, tudo quanto é sobra dos outros planetas são trazidos e soltos por cá. Eu chorei quando nasci por que um cara me agrediu com tapas nas minhas, até então recém-nascidas, nádegas, mas Guilherme chorou “por nos vermos nesse imenso palco de loucos”.
No ônibus eu abro Hamlet novamente e retomo de onde havia parado:

...se não tivesse maus sonhos”

CCV

Próximo Capitulo:

S01E02 - Mulher ao Espelho
"Todas as mulheres da vida de Victor refletem sobre a vida, sobre beleza e deixam uma nota de rodapé sobre o que pensam do Moae. Victor tentaconversar com Beatriz, mas a mulher esta buscando suas próprias conversas com outro homem. Jandela tem problemas com o namorado. Haroldo de boa. Fábio descobre que seu lado feminino é lésbica!

http://oreidacascadenoz.blogspot.com.br/2013/01/s01e02-mulheres-ao-espelho.htmlS01E02 - Mulheres ao espelho

2 comentários:

  1. Eu gostei, dá pra dar risada, o que é algo importante, a meu ver. As diversas referências são agradáveis, mas alguém pode não entender e te acusar de usar palavras alheias (apesar de que dane-se isso). Gostaria de ler o próximo. Ademais, há algumas nuances gramaticais que acredito precisarem de correção ou esclarecimento para mim, mas estas coisas te escrevo por e-mail.

    Ah, uma última coisa: a meu ver, como o Guilherme dá uma risadinha na história, acho que não é o caso de que ele nunca ri, mas apenas que tem um senso de humor diferente.

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  2. Esse é o Enéas que conheço. E o Enéas dá risada sim, um risada contida. Senso de humor diferente sim! Uma pessoa muito pragmática. :)

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