Personagens (em ordem
de aparição)
Victor – O rei da
casca de noz.
Fábio – A torre da casca de noz.
Guilherme – O bispo da casca de noz.
Haroldo – O cavalo da casca de noz.
Jandela – A rainha da casca de noz.
Beatriz – A senhora da casca de noz (mas ainda é uma mulher...).
Sinopse
A
história tem inicio com uma aventura de RPG. Depois uma conversa na
mesa de jogo revela os ideais e perspectivas dos personagens. Neste
conhecemos Victor, Guilherme, Fábio e Haroldo, além da paixão de
Victor, Beatriz; e sua melhor amiga, Jandela
Ato 1 - O Rei da Casca de Noz!
Cena 1 – O Solitário
de São Paulo
(Em um ônibus lotado de pessoas.)
(Em um ônibus lotado de pessoas.)
“Oh Deus, eu poderia viver recluso numa casca de noz e me achar
o rei do espaço infinito...”
Sozinho no ônibus eu leio Hamlet. Dizer sozinho é relativo, pois
está sempre lotado o meio de transporte público. É como ser “o
Solitário de Mariana”; viver com a esposa e quinze filhos e ainda
estar só, ou no meu caso estar em um ônibus com setenta pessoas e
ainda estar só. Na segunda cena do segundo ato meus olhos leem a
frase acima. Ela se fixaria em meu cérebro como um chiclete nos vãos
do tênis. Sempre que penso nela vem a minha mente um reino
dentro de uma casca de noz, afinal eu não posso imaginar todo o
universo. Eu fecho o livro, olho para fora do ônibus e começo a
pensar na vida, pois pensar é o que eu faço de melhor... Sou míope
e, portanto, doente dos olhos.
Talvez você que esteja lendo isso ache que é uma história de
ficção. Você está certo, mas a arte imita a vida e não o
contrário, então eu conto essas estórias
com o arcabouço da minha vida. Isso são palavras jogadas no papel,
e tomara que você leia da esquerda pra direita e de cima para baixo,
respeite as virgulas (elas são importantes), preste atenção aos
sinais e às onomatopéias, as onomásticas. Se você seguir minhas
migalhas eu te levo até a casa de doces, e depois de comer uma bala
vai ver o mundo como eu vejo. Aperte o cinto, segure o chapéu,
amarre o cadarço (não quero você caindo pelo meu reino, creia-me
você não quer se perder aqui) e encha o seu odre de vinho... você
vai precisar.
Esse canto dos dias modernos começa com a história de duas pessoas,
meu pai e minha mãe, mas como a história é sobre o rei da casca de
noz e não sobre os antigos regentes vou me limitar a começar comigo
já adulto, acho que ninguém quer saber sobre copulação e fraldas
sujas. Bem, sobre cópula todo mundo quer saber, senão a internet
seria muito sem graça.
Dizem por ai que a vida é bela, talvez pra quem leu Vinicius. É
aquele cara que como um alquimista medieval escreveu uma receita de
mulher, como se ainda acreditássemos na abiogênese. É uma ideia
estranha, mas muito bonita, alias como tudo no Vini: muito belo, mas
vazio. Ele via o mundo sentado no trono da boemia e regado a
hidromel, e este que vos fala vivia uma vida diferente, bem diferente,
onde o dia reinava e a coca-cola percorria-me as veias. Bom,
como toda história que vai ter um final feliz eu começo a minha com
um...
Cena 2 –
Role Playing Game
(Sentados ao redor de uma mesa com seis cadeiras, mas uma livre. Quadros nas paredes com imagens de serras, montes e praias.)
(Sentados ao redor de uma mesa com seis cadeiras, mas uma livre. Quadros nas paredes com imagens de serras, montes e praias.)
...Era uma vez num castelo de paredes brancas uma princesa de alva
tez e melena negra como numa noite ausente de estrelas. Ali repousada
sobre almofadas vindas das longínquas terras do leste, ela pensava
sobre seu amado, um homem diferente dos outros...
Fábio: Cara! Sério mesmo que cê vai começar assim a aventura?
Victor: Cala boca que quem está mestrando sou eu!
Guilherme: Afe! Dois meses de espera pra você começar falando de
princesa.
Victor: Mas a aventura começa na cidade de Sie Ziune...
Fábio: Nada a ver. Pode começar com um combate pelo amor de Deus!
Faz dois meses que não jogamos. Pode mandar essa princesa pra...
Haroldo: Ei! Ei! A princesa é irmã do Daoge. Você não pode xingar
a irmã do meu personagem!
Victor: Assim não dá... Sou eu quem mestro, por que raios ninguém
cala a boca!
Fábio: Por que você é só um chato! Hahuhauhuahuahuhahau
Guilherme: Se ninguém quer jogar podíamos pelo menos pedir as
pizzas?
Vitor: Ah...
Isso acontecia toda sexta à noite na casa do Haroldo, mas não todas
mais, depois que ele começou a ensaiar com a banda dele ficou mais
difícil reunir o grupo de RPG. Contudo ainda fazíamos isso para ver
a cara um do outro e falar mal das mulheres, mas sempre na pausa do
banheiro ou da comida. Por falar nisso, tente mestrar e parar
pra comer na hora de um combate, minha mãe virou uma puta por
maioria de votos...
Victor: Hora do lanche...
Haroldo: É! To com fome! (Tínhamos a estranha mania de imitar
pessoas e personagens. E sempre que a frase começava com “É!”
seguido do verbo ser conjugado na terceira pessoa do presente
imitávamos Joseph Climber)
Fábio: Mano! Eu vou ligar pra minha namorada. Eu disse que ia ligar
antes de começarmos a jogar.
Haroldo: (Risos) Ta muito manso mano... Na coleira.
Guilherme: É, o Fábio não é mais o mesmo.
Fábio: E o Victor? Quando ele ficava com a doida dos olhos insanos e
risada do mal lá... nem jogávamos, ele...
O silencio foi sepulcral. Meu termino com a Beatriz não foi dos
melhores.
O que é incrível, pois nossas brigas eram de cinco minutos. Cinco
minutos nervosos é verdade, havia gritos e xingamentos, mas toda a
tempestade durava pouco e a bonança vinha rápida. O Fábio nem
ligava mais para as brigas ele só ficava olhando no relógio e
esperando a “Pax Beatrix”. O legal daquela época era
vê-la terminar nossas discussões com um cruzar de dedos. O dedo
médio se sobrepunha ao indicador numa declaração de superioridade
e de claro entendimento: “Vou cruzar as pernas, nada de sexo pra
você”. O que era incrível, pois não transávamos mesmo. Eu, como
Hamlet, julgo-me razoavelmente virtuoso e de argumentos lúcidos, mas
o cruzar de dedos era como uma parábola bíblica, mas com o devido
analogismo: “Quem tem olhos para ver, veja”...
Uma buzina... e como os cães de Pavlov minha boca se enchia d’água
e desse silogismo a conclusão era óbvia: Pizza! Eu sempre me sento
na ponta da mesa, afinal sou eu quem mestro. Depois em sentido
anti-horário sentam-se o Fábio, Guilherme, e o Haroldo, mas a pizza
é consumida pelos mais fortes, Darwin realmente esta certo... Os
mais adaptados, neste caso os rápidos e fortes, alimentam-se antes,
têm maiores chances de sobreviver e de se reproduzir. Merda! Preciso
de mais músculos... Fábio é o cara mais forte e rápido de nós o
cara é tipo um Hulk no meio de zumbis, em termos de condições
físicas ele é muito superior ao restante de nós. Quando éramos
crianças nem mesmo nós três juntos dávamos conta de contê-lo. O
Troll Albino nos empilhava e sentava em cima, um rei sobre seu trono.
Fábio: E a Beatriz, Moae? (Às vezes eu era chamado assim. Moae é
uma raça de meio-dragões do mundo em que jogávamos)
Victor: Hum... O que tem ela?
Fábio: Nada, só quero saber como ela esta?
Victor: Bem, eu acho...
Guilherme: Você não está namorando? – E o olhar de Guilherme para
Fábio era o que diz: “Eu sei o que você fez no verão passado”.
Fábio: Namorando? Nunca. Tem mulher demais nessa terra meu chapa.
Guilherme: Em verdade, no Brasil há 1,04 mulheres para cada homem.
Haroldo: Mas se a sua está livre então já tem mais uma sobrando pra
mim.
Todos riem menos o Guilherme, mas ele nunca ri mesmo...
A campainha toca de novo, mas dessa vez não salivo, pois já estou
comendo meu pedaço de pizza. Haroldo vai atender e volta com
Jandela. A mesa esta cheia de livros e poliedros coloridos.
Jandela: Oi meninos!
Todos dizem oi.
Fábio: Oi Jandela, quanto tempo hein.
Jandela: Não o suficiente.
Guilherme: Tupish!
Haroldo e Victor riem
Jandela: Eita! Vocês ainda brincam disso?
Victor: Ei, ei, ei... “isso” é arte. Beleza!!!, Uma mistura de
teatro, música e contos.
Jandela: Uh-hum. Bom pelo menos tem pizza.
Guilherme: Já se foi à sessão de RPG mesmo, comer parece a melhor
opção.
Jandela: Encontrei a Bia, Victor. Ela tava no cursinho e tava muito
bonita hoje.
Haroldo: Agora sim acabou a sessão, você acabou de invocar a
depressão sobre o mestre.
Fábio: (Risos) Tipo um feitiço de Focus 10 em Humanos hein.
Victor: ...
Jandela: Quando você vai conversar com ela de novo?
Victor: Não sei. A última conversa não foi muito boa.
Em verdade essa conversa foi uma merda. Ela disse o que ouço desde
que comecei a prestar atenção nas mulheres e querer ficar com elas,
“Eu gosto de você, mas não posso ficar contigo. Eu queria te por
numa garrafa e tê-lo sempre por perto”.
Fábio: Ela falou da garrafa?
Victor: Falou...
Haroldo: Nossa cara que merda... Sempre a garrafa...
Guilherme: Você também só arruma mulher doida. Você tinha que
conhecer umas meninas da minha igreja, ou pelo menos uma menina
sensata e cristã.
Victor: Mas eu sou ateu!
Guilherme: Ainda, jovem padawan... Mas eu tenho fé em você.
Haroldo: Ele ta louco... Fé no Victor, onde já se viu...
Jandela: E você Haroldo como anda a banda?
Haroldo: O de sempre, todo mundo quer tocar, mas ninguém quer
ensaiar com regularidade.
Guilherme: O mal do homem é a disciplina.
Fábio: O mal do homem é a mulher. Eu aposto que há mulher na
parada, algum dos seus amigos deve ta de rolo.
Jandela: Afe! Até parece que não há mulheres inteligentes e que
consigam dividir o tempo do namorado com os amigos dele.
Victor: É vamos fingir que há mulheres assim.
Fábio e Haroldo riem. O celular de Jandela toca, a musica é “Meus
bons amigos” do barão vermelho.
Jandela: Alô!
Beatriz: Oi! Tudo bem?
Jandela: Sim e você?
Beatriz: To bem. Onde você ta?
Jandela: Na casa do Haroldo com os meninos.
Beatriz: Ele ta ai?
Jandela: Sim.
Beatriz: Hum... Acho que vou dar uma passada ai então.
Jandela: Certeza?
Beatriz: Sim. Quero falar com ele.
Jandela: Ta bom então. Beijos.
Beatriz: Beijos.
Todos se olham na sala, mas ninguém diz nada. Haroldo faz o som do
vento com a boca, Fábio lhe bate com as pontas dos dedos da mão na
nuca. O estalo força algumas risadas, exceto de Guilherme, ele nunca
ri. Eu mesmo me presto a esbouçar um sorriso com o canto da boca,
mas sem mostrar os dentes. Eles têm de saber que eu não quero
brincadeiras quando a Beatriz chegar.
Jandela: A Bia ta vindo.
Antes dela afirmar, o que ficou óbvio com o término da conversa ao
celular, eu já sabia que ela viria.
Todos olham para Victor. Ele corre em direção à saída da sala, e
os meninos vão atrás dele. Jandela senta, coloca refrigerante no
copo e pega uma pizza.
Jandela: Homens...
Fábio: Você sabia que ele ia correr daqui não sabia?
Jandela: Sim, mas ele ia voltar.
Guilherme: “Mulher bonita é como um machado dotado de vida”.
Haroldo: Ia voltar, mas todo suado de correr por ai.
Eu me sento. Não é fácil olhar nos olhos daquela mulher, em minha
cabeça eu a chamo de “Senhora dos Olhos Bravos”. Ela nunca
desviou o olhar do meu, nunca... e isso me assustava pacas. A
campainha tocou de novo. Meu coração bateu como a explosão de uma
bomba gama e eu tremi. Fábio foi abrir o portão, e quando voltou me
deu um sorriso e escondeu um sinal de joia da mulher atras dele com o
corpo. Ela passou a porta, seu cabelo era comprido e castanho escuro,
os lábios rosa do batom, os olhos – sempre eles – eram castanhos
e incisivos, a pele branca e uma voz melodiosa.
Beatriz: Oi gente!
Todos a cumprimentam. Victor olha sua mão e vê um livro.
Victor: Está lendo o que?
Beatriz: Memorias Póstumas do Machado. É pro vestibular.
Fábio: Que bosta!
Guilherme: Olha o respeito. Machado é o expoente da literatura
portuguesa.
Haroldo: É legalzinho...
Victor: Hereges.
Beatriz: E você anda lendo o que?
Jandela: Hamlet. Ta no Twitter dele. (Jandela é sempre capaz de se
intrometer nas conversas alheias e sair delas como se nunca tivesse
estado ali. Essa habilidade lhe permitia criticar quem quisesse e
sair imune de uma discussão. Ainda acredito que era o uso preciso do
tempo, como se ela medisse o intervalo entre uma pergunta e uma
resposta e encontrasse ali uma brecha para uma oração inteira.)
Victor: “Há algo de podre na Dinamarca”
Guilherme sorri com o canto da boca, não é difícil imaginar que
ele gostava do humor negro e do raciocínio incisivo de Shakespeare.
Beatriz: Victor! Podemos conversar? (Ah! Beatriz, ela sempre teve
esse humor temperado em chamas do inferno. De sua boca podiam sair as
mais belas palavras que um homem gostariam de ouvir ou verbetes
laminados capazes de cortar um nerd, como eu, ao meio. Suas palavras
me abecavam às vezes.)
Victor: Claro. Vamos lá fora.
Cena 3 –
Sob o céu da terra da garoa
(Em um quintal fechado por paredes, mas de seu aberto. Com uma pequena horta e uma bola de futebol jogada ao relento.)
(Em um quintal fechado por paredes, mas de seu aberto. Com uma pequena horta e uma bola de futebol jogada ao relento.)
Saímos ambos para o quintal. A noite estava
confortável, o calor do dia ainda estava armazenado no chão de
concreto, nas paredes e se transferia para o ambiente. O vento
soprava bem fraco, em verdade Zéfiro parecia estar do meu lado
aquela noite, ele mal deformava os cachos castanhos escuros da melena
dela. Não obstante, os olhos frios e cheios de uma coragem sem
limite me fitou. Meu coração gelou e eu achei que tinha morrido e
sido enterrado no Cocite. Sua boca abriu e temi pela minha vida num
súbito ressuscitar. As palavras que saíram da boca dela foram...
Beatriz: Tudo bem com você? (Mas eu não esperava verbetes de
preocupação)
Victor: Tudo. (Respondi meio perdido e como ainda era óbvio o que
pensava, pois não sabia mentir naquela época, ela me perguntou com
tom de voz preocupado)
Beatriz: Tudo? Mesmo?
Victor: Sim, sim. (E olhei para o céu poluído e sujo de São Paulo)
Beatriz: Você anda estranho depois que conversamos na semana
passada.
Victor: Fiquei meio desconcertado. Fazia tempo que não ficava com
alguém como você.
Beatriz: Como eu?
Victor: É. Uma mulher tão bonita e legal. (Eu havia dito isso de
coração acreditam? Eu disse “essa mulher é legal”.
Impressionante de minha parte e me virei para olhá-la de novo)
Beatriz: Obrigada, mas eu não sou tão bonita e nem tão legal
assim...
Victor: É sim... - Respirei forte, ela deve ter ouvido meus pulmões
se esvaziarem. Fitei-a de novo e gaguejei - Por que não estamos
juntos? Ou namorando?
Beatriz: Porque eu gosto de outro cara. Você é muito legal e me
fala coisas bonitas, mas eu gosto demais dele.
Nesse momento meus olhos se encheram d'água. A minha vista ficou
como um aquário e eu ainda a via, mas toda marejada dos meus olhos.
O céu se condoeu de mim e derramou as suas lagrimas também. Eu
descobri que São Paulo é a terra da garoa por que o céu vê
tristezas demais nessa cidade e chora, da mesma forma que o céu se
esconde quando ao pai são servidos os filhos de refeição. E ser o
céu de uma cidade inteira implica em ver muitas histórias tristes.
Victor: Hum. Eu entendo como é gostar demais de uma pessoa
Beatriz: Me desculpe. Eu não queria te magoar e realmente gostei de
sair com você nesse tempo... Mas eu ainda gosto do Pedro.
Agora sim tudo ia de mal a melhor, pois o motivo de minha ira tinha
um nome. Eu poderia colocar o sangue dele numa lâmina minha e abafar
seus gritos com uma lamínula, só tinha se seguir o código Harry e
não seria pego. Ou eu poderia aceitar os fatos...
Victor: Eu entendo. Então ficamos como amigos?
Beatriz: Sim. Eu adoraria ser sua amiga.
Victor: Tudo bem então. Bem vinda ao hospício amiga.
Cena 4 –
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
(Cozinha. Muitos pratos a mesa, caixas de pizza e refrigerantes. Sala com sofá grande, rack, televisão e muitos DVDs.)
(Cozinha. Muitos pratos a mesa, caixas de pizza e refrigerantes. Sala com sofá grande, rack, televisão e muitos DVDs.)
Ao abrir a porta do quintal que dava acesso para a cozinha da casa e
visão da sala pudemos ver todos sentados nos sofás, comendo e
tomando seus refrigerantes. Passamos pela cozinha e chegamos à sala
sem dizer uma palavra, e se não estou enganado nem o nosso andar
sobre o piso fazia barulho. A conversa que se seguia era sobre
decisões de adultos. Uma conversa que eu teria até ser marido e
pai, ser velho e avô, morrer e me unir à Força.
Jandela: Mas isso não tem haver com pagar contas e sim com assumir
os erros.
Fábio: Eu entendo o que você tá falando, mas não é só isso. Não
basta assumir os erros e ser responsável com as contas. Saber se
divertir também é parte de ser feliz.
Haroldo: Eu só acho que ser adulto é fazer tudo o que se quer sem
causar mau aos outros.
Fábio: Viu. O Haroldo entende o que eu digo.
O Haroldo olhou para mim e para a Beatriz e deu de ombros. Eu ri baixo
e Beatriz também. Eu a olhei no olhos e disse sorrindo:
Victor: “Ó vós que entrais, deixai a esperança”
Beatriz: Que?
Victor: Bem vinda ao show de horrores. (Risos)
Jandela: Cara, ser adulto é fazer o que tem de ser feito.
Fábio: Nada a ver, você não é um soldado, “fazer o que tem de
ser feito”, fazemos o que dá pra fazer e se divertir é parte
crucial disso.
Guilherme: Quando foi que ela disse que se divertir não esta incluso
em ser adulto.
Fábio: Mas é claro que não esta. Se você só faz o que deve ser
feito não sobra tempo pra você mesmo.
Guilherme: Ser adulto e ser feliz são a mesma coisa? Claro que não,
mas podem ser harmonizadas.
Haroldo: Eu acho que é só aceitar a vida como ela é.
Beatriz: Eu acho que ser adulto é levar a vida a sério.
Naquele momento eu devia ter entendido que nunca iriamos ficar juntos
para sempre. Levar a vida a sério nunca foi o meu ideal, mas sim
passar pela vida sem muita porrada. Sou um homem de hábitos simples:
gosto de comer, dormir e jogar RPG. Não consigo me imaginar com uma
mulher que leva a vida a sério. Ela teria de dançar na chuva,
brincar com crianças, rolar na grama, gritar nome de golpes em
japonês. Tudo o que a Beatriz não faria comigo.
Beatriz: O que é ser adulto pra você Victor?
Victor: Um dia fui ao meu pai chorando e perguntei para ele quando os
problemas da adolescência iam terminar. Ele me disse que nunca, que
ser adulto era aprender a não chorar ou se desesperar quando algo
ruim acontece. Ser adulto é levantar quando se cai, é seguir em
frente quando pode-se voltar pra trás. É aguentar a consequência
das escolhas que se faz.
Todos se olharam.
Fábio: Grande “Tio Bigode”.
Todos riem. Engraçado como meu pai era visto como um cara legal
pelos meus amigos. É certo que ele sempre os tratou bem, nos buscava
em shoppings quando éramos crianças e comprava sorvete. Minha mãe
era mais reclusa e quando saía da toca eram os gritos que a
denunciavam, os palavrões e as porradas.
Quando as risadas cessaram a televisão quebrou o silêncio.
Cena 5 –
A sétima arte.
A cena ali era do filme G.I. Joe.
Beatriz: Nossa eu vi esse filme no cinema!
Jandela: Eu não sei que graça tem em filmes assim. Mortes,
explosões e mais mortes.
Guilherme: Como assim você não vê graça em filmes assim! São
muito bons. Vai me dizer que você não viu Batman, o Cavaleiro das
trevas?
Jandela: Não vi, e não quero.
Todos os homens colocaram o dedo indicador no peito, começaram a
tremer e deixaram-se cair ao chão.
Beatriz: Que que é isso?
Haroldo: Acabamos de apertar o botão de infarto. - virou-se para
Jandela – Como assim não quer ver o Cavaleiro das Trevas?
Jandela: Parece bobo!
Guilherme: Tragam os forcados. Vamos matar essa bruxa.
Victor: Ela só precisa de uma educação melhor... Só isso.
Fábio: Calem-se vocês me deixam doido! Ta no fim o filme.
Victor: A pior parte de todas desse filme.
Haroldo: Por que?
A cena envolvia o chefão do mal apertar um botão para destruir o
gelo acima da base subterrânea e destruí-la.
Victor: Eu só imagino se fosse real isso. O vilão pressiona o
botão, o gelo do teto começa a explodir e... boiá! Gelo não
afunda! Imagina a cara do vilão olhando pra cima e gritando 'Chame o
engenheiro dessa merda'.
Todos riem.
Jandela: O filme já é ruim e você ainda o piora.
Guilherme: Esse merece ser zuado.
Fábio: (Risos) Ai sim!
Haroldo: Tá na hora de matar a fome! Ta na mesa pessoal!
Saímos da sala e fomos para a cozinha novante. Umas boas risadas e
mais conversa jogada fora. Os cabelos vermelhos de Jandela refletiam
sua disposição de conversar sobre filmes de super-heróis e
desenhos japoneses, mas tudo bem, cedo ou tarde todo mundo muda...
Às três e pouco da manhã Beatriz se levantou da cadeira e disse que precisava ir embora. Haroldo se levantou também e todos o seguimos no ato.
Às três e pouco da manhã Beatriz se levantou da cadeira e disse que precisava ir embora. Haroldo se levantou também e todos o seguimos no ato.
Jandela: Você vai dormir na minha casa.
Beatriz: Tudo bem.
Cena 6 –
Kiss your past and goodbye.
Do lado de fora da casa nos despedimos. Jandela e Beatriz desceram a
rua, enquanto eu, Fábio e Guilherme a subíamos. Era um bairro calmo,
senão eu teria as levado em casa. Subíamos a rua cantando um pouco
de tudo, começamos com a primeira versão da abertura dos Cavaleiros
do Zodiaco (Tem sempre alguém no cosmo...), passamos por My Way (do
Frank) e terminamos com Larger than Life (Dos caras da rua de trás,
fazer o que, essa musica fez parte de nossa infância também).
E assim, na noite de uma sexta-feira começava o meu sábado. Saí da
toca do leão. Como sempre saio de lá de madrugada, por volta das
quatro da manhã, vou andando até o terminal de ônibus acompanhado
do Guilherme e do Fábio. No terminal nos despedimos e cada um pegou
seu “Cata Louco”, segundo o Fábio, ônibus é só isso, um meio
de ajuntar os loucos dos mais distantes locais e colocá-los todos
juntos. Guilherme acha que a Terra é o hospício do universo, tudo
quanto é sobra dos outros planetas são trazidos e soltos por cá.
Eu chorei quando nasci por que um cara me agrediu com tapas nas
minhas, até então recém-nascidas, nádegas, mas Guilherme chorou
“por nos vermos nesse imenso palco de loucos”.
No ônibus eu abro Hamlet novamente e retomo de onde havia parado:
...se não tivesse maus sonhos”
CCV
Próximo Capitulo:
S01E02 - Mulher ao Espelho
"Todas as mulheres da vida de Victor refletem sobre a vida, sobre beleza e deixam uma nota de rodapé sobre o que pensam do Moae. Victor tentaconversar com Beatriz, mas a mulher esta buscando suas próprias conversas com outro homem. Jandela tem problemas com o namorado. Haroldo de boa. Fábio descobre que seu lado feminino é lésbica!
Eu gostei, dá pra dar risada, o que é algo importante, a meu ver. As diversas referências são agradáveis, mas alguém pode não entender e te acusar de usar palavras alheias (apesar de que dane-se isso). Gostaria de ler o próximo. Ademais, há algumas nuances gramaticais que acredito precisarem de correção ou esclarecimento para mim, mas estas coisas te escrevo por e-mail.
ResponderExcluirAh, uma última coisa: a meu ver, como o Guilherme dá uma risadinha na história, acho que não é o caso de que ele nunca ri, mas apenas que tem um senso de humor diferente.
Esse é o Enéas que conheço. E o Enéas dá risada sim, um risada contida. Senso de humor diferente sim! Uma pessoa muito pragmática. :)
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