Eu lembro de chegar atrasado ao jantar que havíamos marcado com uma semana de antecedência. Estava chovendo e não foi fácil sair do trabalho naquele dia. Você estava como sempre: "Linda e perfeita" e eu como sempre, mas molhado. Você estava de costas para a entrada da praça de alimentação e não poderia me ver chegar, não poderia olhar o meu nervosismo a cada passo aumentando como tiros de canhão em meu peito. Eu achei que fosse colocar o coração para fora nesse dia, mas como o corretor de texto do word o bom senso veio corrigir esses tiros e me trouxe uma conclusão simples: "Você ainda toca o chão." e eu me convenci disso.
A primeira vez que nos vimos depois do hiato, eu esperei no ponto de ônibus você chegar. Eu tinha de ver com meus próprios olhos se você iria colocar os pés no chão como todo mundo ou flutuar, e não tocar seus pés no maculado mundo podre no qual eu e mais algumas bilhões de pessoas vivemos. Você não me decepcionou, colocou teu pé com tanta força no chão, que eu lembro de ver a sujeira se lançar uns bons quilômetros de ti.
Quanto mais eu me aproximava de você, na praça de alimentação, mais de suas costas eu podia ver. A pele morena com textura de pêssego e de um perfume inebriante, pelo menos é o que eu lembrava de teu cheiro. Como o besta que sou decidi bater em seu ombro de um lado e, magicamente, aparecer do outro. E como você não tem amigos como eu, você caiu na brincadeira, mas se recuperou logo e volveu teu rosto com aquele sorriso de contos de fadas, de olhos abertos como um céu a noite sem nuvens e de brilho estelar. Um "bobo" saiu de tua boca e me pareceu um ótimo elogio.
Eu sentei como o bobo da corte se senta na cadeira do rei, sem dignidade e sabendo que ali não é seu lugar. Então sem vanilóquios você me disse: "Estou namorando", e eu pensei em me atirar da janela do oitavo andar, mas eu gosto demais de mim mesmo para cometer um ato tão ignóbil e privar a humanidade do meu gênio, carisma e beleza. Eu devo ter aberto a boca, pois só isso explica por que você me deu um tapa no queixo e me mandou parar de colocar a língua para fora. Eu perguntei com quem e você me disse que com um cara que te fazia feliz, que te achava linda, que tinha carro, usava roupas coloridas e luzes nos cabelos. Imaginei um dos carinhas da rua de trás cantando "Larger than life". Não me lembro de ter ferro no corpo além do que tem no meu sangue, então naquela noite eu chorei e decidi que você devia tentar com o Filho do Eterno e ser feliz...
Eu me lembro também que haviam tantos elogios presos em minha garganta para superar os "bonita" dele, havia tanto de Camões e Shakespeare esperando para serem ditos que eu acabei por não dizer nada. Minha mão esquerda teve de conter a direita, pois esta queria tomar-te o pulso e impedir sua saída de minha vida. Naquele dia eu jurei a mim mesmo, que é mais importante do que jurar a algum deus ou a alguém, que nunca mais namoraria ninguém que não fosse ti. E me lembrei do outro amor que tive, quando prometi que nunca mais eu diria "eu te amo" a ninguém. E a vida segue esse comboio de corda chamado coração?