quarta-feira, 23 de julho de 2014

Requiescat in Pace

Nos últimos meses as conseqüências de meus atos vieram me buscar para pagar os crimes dos quais eu arrumei tempo para executar, ao contrario de Hamlet. É uma pena, mas eu não ficarei com a mulher que escolhi amar, não ficarei com os amigos dos quais eu escolhi passar meu tempo... Eu não vou poder sair do meu esconderijo, ser o último a bater no muro e salvar o mundo. Ser adulto é complicado. Contudo, meu Velho estava certo, a adolescência não acaba, você só passa a viver com suas escolhas "com a graça de um adulto e não a tristeza de uma criança". Não são dele essas palavras, mas o sentido é o mesmo...
Eu juntei minhas coisas e me vi nelas, depois as embalei e as joguei no lixo. Não cabe mais em minha vida ser o que sou. Não sei o que será daqui para frente. Não sei o que me aguarda, e mais importante, quem me aguarda no futuro. Não posso ser como Ghandi, eu não posso andar só, pois esta é uma escolha muito dura para quem já vive na solidão. Espero que Shakespeare esteja certo e que meus amigos entendam as mudanças...
Adeus Bêbado Vadio...

Onde as letras jazem?



Ás vezes eu queria escrever coisas alegres, as vezes coisas tristes e quem sabe até falar do amor, dos amores passados, dos de hoje em dia e dos que espero encontrar pela frente. Escrever sobre a natureza e a antropomorfizar, escrever sobre o dia a dia, sobre aventuras reais e as que se passam na minha cabeça.
Descrever amizades e amigos, como cada um deles é tão são e louco quanto Mister Hyde e o Doctor Jekyll. Contudo, mesmo tendo um milhão de coisas para escrever e descrever ando sem vontade de fazê-los.

Última Ceia

Eu lembro de chegar atrasado ao jantar que havíamos marcado com uma semana de antecedência. Estava chovendo e não foi fácil sair do trabalho naquele dia. Você estava como sempre: "Linda e perfeita" e eu como sempre, mas molhado. Você estava de costas para a entrada da praça de alimentação e não poderia me ver chegar, não poderia olhar o meu nervosismo a cada passo aumentando como tiros de canhão em meu peito. Eu achei que fosse colocar o coração para fora nesse dia, mas como o corretor de texto do word o bom senso veio corrigir esses tiros e me trouxe uma conclusão simples: "Você ainda toca o chão." e eu me convenci disso.
A primeira vez que nos vimos depois do hiato, eu esperei no ponto de ônibus você chegar. Eu tinha de ver com meus próprios olhos se você iria colocar os pés no chão como todo mundo ou flutuar, e não tocar seus pés no maculado mundo podre no qual eu e mais algumas bilhões de pessoas vivemos. Você não me decepcionou, colocou teu pé com tanta força no chão, que eu lembro de ver a sujeira se lançar uns bons quilômetros de ti.
Quanto mais eu me aproximava de você, na praça de alimentação, mais de suas costas eu podia ver. A pele morena com textura de pêssego e de um perfume inebriante, pelo menos é o que eu lembrava de teu cheiro. Como o besta que sou decidi bater em seu ombro de um lado e, magicamente, aparecer do outro. E como você não tem amigos como eu, você caiu na brincadeira, mas se recuperou logo e volveu teu rosto com aquele sorriso de contos de fadas, de olhos abertos como um céu a noite sem nuvens e de brilho estelar. Um "bobo" saiu de tua boca e me pareceu um ótimo elogio.
Eu sentei como o bobo da corte se senta na cadeira do rei, sem dignidade e sabendo que ali não é seu lugar. Então sem vanilóquios você me disse: "Estou namorando", e eu pensei em me atirar da janela do oitavo andar, mas eu gosto demais de mim mesmo para cometer um ato tão ignóbil e privar a humanidade do meu gênio, carisma e beleza. Eu devo ter aberto a boca, pois só isso explica por que você me deu um tapa no queixo e me mandou parar de colocar a língua para fora. Eu perguntei com quem e você me disse que com um cara que te fazia feliz, que te achava linda, que tinha carro, usava roupas coloridas e luzes nos cabelos. Imaginei um dos carinhas da rua de trás cantando "Larger than life". Não me lembro de ter ferro no corpo além do que tem no meu sangue, então naquela noite eu chorei e decidi que você devia tentar com o Filho do Eterno e ser feliz...
Eu me lembro também que haviam tantos elogios presos em minha garganta para superar os "bonita" dele, havia tanto de Camões e Shakespeare esperando para serem ditos que eu acabei por não dizer nada. Minha mão esquerda teve de conter a direita, pois esta queria tomar-te o pulso e impedir sua saída de minha vida. Naquele dia eu jurei a mim mesmo, que é mais importante do que jurar a algum deus ou a alguém, que nunca mais namoraria ninguém que não fosse ti. E me lembrei do outro amor que tive, quando prometi que nunca mais eu diria "eu te amo" a ninguém. E a vida segue esse comboio de corda chamado coração?